sábado, 7 de novembro de 2009

November Rain


Dezembro é sábado. Férias, décimo terceiro, natal e festas de fim de ano, talvez seja isso que dá o tom de fim de semana em Dezembro. Janeiro? Bem, Janeiro é domingo, isso é fato. Aquela preguiça de domingo, de pensar que já já volta tudo de novo, toda a rotina e as promessas de na segunda mudar toda a vida: regime, esforço, trabalho. Mas essas promessas não começam na segunda feira, que neste caso é Fevereiro. Esse mês é uma espécie de segunda feriado de muito sol: dura pouco, você curte bastante, não faz nenhum regime tão pouco pensa em trabalhar. Eu, particularmente, não gosto muito daquela típica festa em que as pessoas fazem o que gostariam de fazer o ano todo. Gosto mesmo é do feriado. Apenas. O puro e simples fato de ser feriado.
A vida começa na terça. Março. Nos últimos anos não tenho visto suas águas. Nem sei mais quando fecha o verão. A quarta vem mais pra frente: Junho e Julho. É a metade. Sensação de estar no meio. Há pouco tempo atrás era o começo, mas daqui a pouco tempo acaba o ciclo. Antes de ontem ainda era segunda, mas depois de amanhã já é sexta. Setembro e Outubro: Quinta. O que dizer da quinta? O que você pensa quando digo: hoje é quinta feira? Apenas um "que bom" vem a minha mente.

Novembro tem clima de sexta feira. Aquela sensação de que falta pouco pra acabar. Mas essa sexta começa chuvosa, por causa do dia de finados. Um tanto triste eu diria. Me pergunto o porque de um feriado para os mortos, se quem “comemora” são os vivos. Esse dia só nos faz pensar e achar que os outros se foram e que ficaremos vivos pra sempre. Todos nós um dia vamos embora. Talvez se houvesse o “dia dos vivos” lembraríamos que existe a morte e aí sim teríamos motivos pra comemorar: o fato de estar vivo, ainda. Esperto foi o meu avô que morreu num dia 3 de Novembro. Aproveitou o seu último feriado pra depois ir dessa pra melhor. Melhor? Não sei. Essa é uma expressão que todo mundo usa, mas ninguém sabe ao certo. Tudo bem que ele nunca voltou pra reclamar (não que eu tenha visto ou ouvido). Acho que o assunto morte e o que vem depois dela é muito pessoal e cada um sabe e acredita na melhor resposta pra entender e consolar-se diante dela.

Em uma entrevista a Michael Jackson perguntaram o que gostaria que fizessem quando ele morresse. Então, respondeu que não pensava nisso. E porque, perguntou o jornalista. “ Eu nunca vou morrer” respondeu Michael. Foi a mais pura verdade. Jackson continua vivo. Em suas músicas ainda tocadas, no seu filme documentá rio, suas danças. Elvis também não morreu. Ou alguém consegue esquecer o talento do astro do rock? E quanto aos missionários? Gandhi ou Madre Thereza. Será que morreram? Acredito que permanecem vivos dentro de tudo que realizaram e todo bem feito na vida de outras pessoas. Essa essência individual é que faz de nós o que somos. É o que se transmite nas ações e atitudes, sejam elas boas ou ruins. Quem determina a nossa morte não se sabe, mas a nossa imortalidade a gente pode decidir. Se vai colocar todo amor,
convicção em que construir, essa energia fica pra sempre. Talvez não seja reconhecida logo, mas sementes plantadas sempre acabam germinando.

A vida não começa quando chega o sucesso. Começa quando a procura da felicidade é fazer aquilo que ama fazer. Sem esperar reconhecimento. Apenas dando o melhor de si. Não começa daqui a dez ou vinte anos. Começa na segunda, na terça, quarta, todos os dias de Janeiro a Janeiro. O que se tem feito da semana? O que se tem feito com a vida? As vezes as pessoas me parecem apenas planejar o amanhã, quando na verdade o amanhã não existe. O que existe é o hoje, o agora. Nosso corpo é como uma cápsula que carrega nossa essência e é instrumento pra que se possa edificar nossas idéias. Um dia essa cápsula se vai, mas o efeito fica. Ou não. Depende do que se faz com cada cápsula. Podemos apenas aceitar o padrão e seguir uma vida vista como normal, esperando a morte chegar. No dia dois de Novembro seremos lembrados e colocarão flores as quais nem vamos conseguir pegar. Mas podemos viver seguindo nossos sentimentos (desde que não prejudiquem ninguém), mesmo que esses não agradem a maioria. Seremos lembrados sempre. E nossa vida continuar. Ou melhor, o efeito da cápsula durar mais tempo.

Então resolvi reeditar essa postagem acrescentando um vídeo de um cara que com certeza faz um ótimo uso de sua cápsula e nao espera o amanhã. video

sábado, 24 de outubro de 2009

O debate perdido.

Atenção: Esse texto é uma ficção. Qualquer semelhança é mera coincidência...




- Alô.
- Alô, por favor a Fulana?
- É ela.
- Ela quem?
- Fulana.
- É, então, eu queria falar com ela, pode ser?
- Então fala.
- Desculpe, mas é só com a Fulana.
- Olha, aqui quem fala É a Fulana, entendeu?
- Ah, sim... Oi Fulana...
- Oi, Beltrana, diga.
- Você vai amanhã?
- Vou.
- Então tá bom. Beijos.
- Calma aí você só ligou pra falar isso?
- Ah tem outra coisa: Dinheiro traz felicidade?
- Quê?
- DINHEIRO TRAZ FELICIDADE?
- Eu não estou surda. Por que a pergunta do nada?
- Do nada não. Do dinheiro.
- Olha, eu não sei... Acho que não...
- Mas e se você estivesse com fome ou sem saúde?
- Ai é uma necessidade básica.
- Não é nada. Outro dia eu fui no hospital público e não tinha todos os remédios necessários... então não é básico.
- Han? Olha tô falando que saúde no geral é básico pra sobreviver. Que nem a comida.
- Mas pra isso tem que ter dinheiro, né?
- Nesse mundo capitalista sim, mas quem sabe se uma pessoa de um país socialista não é feliz?
- Claro que não! A África é um país socialista e ta todo mundo com fome lá!
- OI!?! Olha melhor esquecer tudo isso então.
- Eu vou pesquisar sobre isso... Se é socialista ou capitalista eu não sei... só sei que estão com fome...
- Tá bem, aproveita e pesquisa a diferença entre socialismo e comunismo, porque também tem diferença.
- Você tá fazendo mal criação? Você adora dar umas respostas típicas de adolescente que vai pra fase adulta. Não sabe perder.
- Mal criação? Olha você não entendeu nada... Tá bem, OK!
- OK, o que?
- Ok, o dinheiro traz toda felicidade do mundo.
- AHAA! Sabia que você ia concordar! Então é isso, beijão.
- Tchau.
- Ah! Outra coisa.
- OH, céus. o quê?
- Você perdeu o nosso debate.
- Qual era seu objetivo?
- Tem como você me emprestar um dinheiro?
- Pra quê?
- Pra salvar a África...


sábado, 26 de setembro de 2009

STOP! O mundo parou, ou meu celular sumiu?


11 de Setembro

Perdi meu celular. Puts! Não acredito. Deixei la no curso, tava em cima da cadeira. Foi depois que eu atendi o... o... Com quem mesmo que eu tinha falado? Sei lá. Que horas tem? Onze da noite. Droga, essa hora o curso já fechou. Boa, Ingrid, esquecer o celular no curso na sexta-feira depois da última aula. Parabéns pra mim! O jeito é ligar pra ele, será que alguém pegou? Chama chama e ninguém atende, mas que droga! Peraí, droga não, deve ter ficado na sala mesmo, o inspetor trancou a sala e nem deve ter visto. Amanhã tem simulado. Vou lá cedo, antes que alguém veja e pegue. E agora? Conto ou não conto pra minha mãe? “ Mãe perdi meu celular, no curso...” Claro que não! Preciso de um tom que está tudo sobre controle. “Mãe, olha só, meu celular ficou no curso, mas eu não perdi não, amanhã eu vou buscar ele...” Isso! Assim ela não fica tão nervosa. E se ela quiser me matar? Ai tudo bem. Não precisa de celular no céu. Qualquer coisa eu vou numa sessão espírita e dou comunicação...

12 de Setembro

curso pela manhã:
- Oi, tio, ontem a noite quando o senhor fechou a sala, você viu um celular?
- Ontem? Ah! Vi sim! Era assado assim?
- Não, era assim e assado.
- Ah então não vi não.
-Sabe alguém que tenha visto? Posso ir la na sala procurar?...
E nada. Nadica de nada. Levaram? Será que levaram pra sempre mesmo? Vou ligar pra ele de novo. “O número para o qual você ligou encontra-se desligado ou fora da área de cobertura...” Mas quem diabos inventou de colocar essa vozinha quando o celular está desligado? Não tem coisa mais agonizante. Não podia ser o puro e simples “tu tu tu tu tu...” ou “acabou a bateria, quando carregar ele te liga” ou “ Mais tarde ele te liga” Já dava uma tranqüilizada, mesmo que ninguém ligasse.

- Olha, filha, o jeito é você voltar aqui na segunda, perguntar a quem estava na sala na sexta e confiar na honestidade das pessoas.

Confiar na honestidade das pessoas. Confiar. Honestidade. Pessoas. Não tava conseguindo juntar as três palavras. Mas porque não? Se fosse você que achasse o celular? Você devolveria? Claro! O celular não é meu. Mas nem todo mundo pensa assim né. A esperança agora é a segunda. Segunda-feira. Eu vou achar. Ah! Claro que vou. Ou não vou? Pô, mas foi tão caro. Oh! Céus! Não consigo pensar em outra coisa. E esse fim de semana que não passa, ein...


14 de Setembro
Ah! Finalmente! Segunda. Melhor ainda: já está de noite. Hora de ir pro curso.
- oi, tudo bem? Olha só, na sexta, por acaso você viu um celular por aqui ali no chão, ele era assim e assado...
- Ih, menina, não vi não.
- Gente, alguém viu?
É, perdi. Perdi mesmo. Ah, não queria chorar, mas não to me controlando. É só um celular. Mas era meu. Depois eu compro outro. É, com que dinheiro? O jeito é ficar com esse que minha mãe me emprestou. Ela não pode ficar sem falar comigo durante o dia. Por sinal ela ta me ligando agora. Deve está querendo saber se eu achei o meu. Melhor nem atender, se não ela vai perceber que eu to chorando.

Caramba, ela ta insistindo. To no meio da aula. Ta bom. Vou sair e atender. Pode ser alguém que queira falar com ela, algum amigo, afinal esse número é dela mesmo. “chamada a cobrar para aceita-lá...” Chamada a cobrar? Ah! Ta de brincadeira. Que amigos são esses da minha mãe, ein. E não para de insistir. Quer saber? Vou ligar de volta.

- Alô, quem é?
- Então, você tava ligando pra esse número a pouco tempo... quem ta falando?
- Qual é o seu nome?
- Você por acaso estava ligando pra Ellen?
- Ellen, você estuda no curso Bla bla bla?
- Sim, eu sim. A Ellen não.
- Peraí, quem ta falando?
- Aqui é a Ingrid, que estuda no Bla bla bla e é filha da Ellen. É que esse telefone é dela.
- Ah sim. Aqui é o coordenador do curso da manhã. Então, é que foi encontrado um celular ai no curso no sábado... por acaso é seu?
-SIM SIM... EU PERDI UM CELULAR!!
-Ele é assim assado refogado?
- É ELE MESMOOO!!! AAAHH! QUE BOM QUE BOM!!!
- Amanhã você passa ai no curso de manhã e pega ele.
- Ah pode deixar!! Mas quem encontrou?
- Olha foi um menino da turma do preparatório pra EsPCEx e ele queria te pedir desculpas...
-Ora, mas por quê?
- Porque ele usou seu telefone para fazer uma ligação.
- Ah tudo bem...


E lá fui eu ao encontro do bendito. E dessa vez não estou falando do aparelho. Recuperei, mas não consegui agradecer ao menino. Ele não tinha ido a aula naquele dia. Passei a ir todos os dias no horário das aulas da EsPCEx, mas o “salvador” nunca estava presente, ou chegava atrasado quando eu já tinha ido embora.

Essa semana eu passei lá e o expetor me disse que as aulas do pré militar acabaram e que o rapaz não iria mais ao curso. Eu fiquei muito reflexiva. Ele podia ter levado pra ele o celular, ninguém ia saber. Não. Não o fez. Ainda pediu desculpas por causa de uma única ligação que fez sem que eu autorizasse.

Confiar. Honestidade. Pessoas. Ainda existem. Ainda existem pessoas honestas. E talvez a dificuldade de encontra-las seja porque estamos tão desacreditados do mundo, achando que nada mais tem jeito, que nem percebemos que ainda há pessoas legais. Pessoas que se preocupam se uma coisa encontrada é delas ou não é e quais medidas devem ser tomadas.

Eu ainda não consegui falar pessoalmente com o menino. Só pelo orkut. Uma pessoa aparentemente simples, mas com uma atitude exemplar. Agradeço de coração ao Bruno.
Não só por ter me devolvido, mas por me fazer perceber que o mundo não está perdido, é nos pequenos detalhes que se faz a diferença...

Calma, não fui abdusida!

Olá pessoal.
Primeiro de tudo: Mil desculpas pela demora por uma nova postagem.
Mas com um tecnico, um pre-vestibular, um estágio e um computador com defeito (estou numa lan house...!) fica complicado passar por aqui...
Mas fiquem tranquilos, tenho novidade: todo quarto sábado ou domingo eu estarei postando por aqui, faça chuva ou faça sol!!
Obrigada pelas visitas e mais uma vez desculpem minha ausencia.
beijinhos a todos

sábado, 15 de agosto de 2009

O(s) (Ir)racionais




Pra mim ele tinha que se chamar Brown. Eu ouvi essa palavra nas aulinhas de ingles da escola, mas nem sabia o significado. Meu irmão queria que fosse Scooby." Ah, Victor, você nao tem criatividade, ein." " E você tem? O que significa Brown? Diz ai esperta." Então ficava muda com cara de choro. Mamãe dizia: Vai ser Salaminho, ponto final. Se tratava de um Dachshund, ou melhor, o cachorro salsichinha da propaganda da Cofap. O nosso primeiro cão, quer dizer, primeiro macho já que um mês antes tentamos ter uma cadelinha, mas a Bigol na primeira semana já tinha destruído metade dos nossos sapatos, o pé da minha cama e um pedaço do sofá. Foi para um outro lar. Apesar da pouca convivencia, chorei. Não tem problema, filhinha, a gente vai encontrar um outro cachorro - consolo de mãe.

Tio Dirceu ligou ao saber da história. " Ele ja está aqui em casa, sábado vocês vem pra busca-lo." E lá fomos discutindo pelo caminho o nome do novo membro da familia. A porta mal abriu e ele veio nos recepcionar. Não o tio, mas o cachorro. Era marronzinho, pequenininho e com umas orelhas enormes. Own! Que bonitinho, mamãe! - falei ja pegando no colo. Me mordeu e fugiu de mim logo de primeira. "Dumbo! Não faça isso!" Tia Janyr explicou que por causa das orelhas grandes apelidaram de Dumbo, lembra do elefantinho voador? Sentei no sofá e na inocência da minha tenra idade (6 anos) eu fiquei olhando com os olhos marejados, com ciume do cãozinho que não gostava de mim e que fazia festa a todos da casa. Meu irmão mais velho, que já gostava de implicar comigo, foi logo dizendo: Olha como ele fica feliz comigo, acho que vai me escolher como dono.

E a noite daquele sábado foi assim. Todos os adultos conversavam na sala, meu irmão brincando com alguma coisa que não lembro e eu correndo atrás da atenção do cachorrinho, que me desprezava de longe e rosnava quando eu chegava perto. Por fim, lá pra umas dez da noite, Dumbo dormiu no sofá. Aquele filhotinho mal criado e cheio de vontades conseguia ser a coisinha mais lindinha de se ver quando estava dormindo. Na ponta do pé eu cheguei perto, deitei do lado dele e segurei na sua patinha fazendo carinho, como se fosse um bicho de pelúcia. Dessa vez as gotículas nos meus olhos eram de emoção. "Acho que agora ele vai gostar de mim..." pensei. Quando o danado abriu os olhos e deu comigo, saiu correndo de novo.

Morávamos em uma casa de vila em Cascadura na época. Tinha um terraço enorme e uma piscina que não tinha sido azulejada - no verão meus joelhos viviam arranhados por causa disso. E lá Dumbo construiu seu império, demarcando cada cantinho com muito cuidado pra que ninguém esquecesse que ali habitava um cachorro. Acho que ele levou um pouco a sério o papo de elefante voador, porque da sacada do terraço onde subia para olhar a rua, ele caiu cinco vezes. Passávamos o dia na casa da vovó, só íamos pra nossa casa quando o papai ou a mamãe chegava do trabalho pra nos buscar. O filhote passava o dia todo sozinho no seu vasto espaço, e qual a nossa surpresa quando chegávamos perto da escada que dava pro terraço? Receber na cabeça uma cambuca vazia arremessada pelo cão e uma chuva de latidos. Estava morto de fome e de saudades. Não de mim, obvio. O interessante era que mesmo rosnando pra mim, me desprezando, me desmoralizando na frente das pessoas quando pedia-o para sentar e ele pulava em mim, se eu entrasse na piscina ele entrava também e me puxava para a borda como se quisesse me salvar. Se eu chorasse ele ficava sentado na minha frente com as orelhinhas levantadas ou lambia as minhas mão.



Mudamos pra um apartamento em Madureira. " Vamos ter que dar esse cachorro! Aqui eles não permitem animais." Lá vai choradeira. Abraçava Dumbo todo dia chorando e por incrível que pareça nessas vezes ele não rosnava pra mim. Foi feita uma reunião de condomínio: o cachorro fica ou não? Levando em conta que ele não incomodava tanto e que havia crianças muito mais mal educadas do que ele, sim, ele ficou! " Duuumbooo, você ficaaa!!" e respondia "HALF HALF". São muitas as histórias que passamos com esse cachorrinho, até arranjamos uma companhia pra ele: Julia, a cadelinha que pra não ser jogada na rua ficaria um tempo na nossa casa. Tempo que dura até os dias atuais. Incrível como a presença do sexo feminino muda a vida de um macho. Tibimbim, como o chama minha mãe, passou a ser mais amigável, a latir menos e até ser mais paciente na hora de ir na rua.



Em dias de verão meu quarto virava (e ainda vira) um acampamento. Economia de ar condicionado, todo mundo dorme num quarto só pra aliviar o bolso da matriarca. Desde sempre o Dumbo foi abusado. Deitava na minha cama querendo ocupar todo espaço. Naquela noite eu já estava de saco cheio. “Dumbo desce! Dumbo sai! Dumbo vai pra sua cama!”. Pela madrugada eu o expulsei de vez. Tive uma noite excelente, com a cama só pra mim. Em pleno sono da manhãzinha, aquele bem gostozinho de ter, quando o dia ainda está clareando e nada mais importa. O ar bem frio que refrescava, o edredom macio e o sussurro do silêncio. Nada pode ser melhor. Ei? O que é isso? O ar esquentou de repente? Que cheiro ruim é esse? Oh! Mas de onde vem essa umidade? Acreditem, o capeta em forma de cão fez xixi na minha cabeça.

Agora eu já estava quase completando 18 anos. Faltava menos de um mês. Sexta feira santa e mais uma rotina de levar o cão na rua. Na volta tentei tirar a coleira dele, então peguei ele no colo. Começou a rosnar pra mim. Normal. De repente só senti os seus dentes fincados bem no meu rosto. Um arrannhado no meu nariz e um furo bem pertinho do olho esquerdo.

CHEGA CHEGA CHEEGAA!!! EU NÃO QUERO MAIS ESSE CACHORRO!! DEVOLVE ELE, MÃE! MANDA ELE DE VOLTA PRO SÍTIO DO TIO DIRCEU! EU NÃO AGUENTO MAIS!!

Eu já nem olhava pra ele. Nem sabia qual sentimento eu tinha por aquele animal: se era amor, raiva, ódio. Só sei que passei mais de um mês sem precisar levar ele na rua. Talvez tenha sido um disfarce da minha mãe pra que eu não assassinasse o cachorro. Minha cara ficou igual a do ursinho Pooh: Inchada com dois olhinho pequenos que não abriam direito.



Depois desse dia eu passei a tentar esquecer todo esse pesadelo. Esquecer que tinha cachorro. Levava na rua muito maquinalmente. De uma coisa ele não pode reclamar: eu nunca interrompi na sua liberdade na rua. Late o quanto quiser, espanta os pombos e faz xixi a vontade. Há algumas semanas atrás nas habituais aventuras, a vizinha que vinha com a sua cachorrinha infernal (aquelas pinches insurpotáveis) fez questão de colocar em evidência a sua opinião não solicitada:
- Menina! Você não tem controle sobre o seu cachorro. Você precisa se impor. Seja firme menina conversa com ele. Por isso que ele late: por que você não mostra moral e bla bla bla bla bla...
Nessas horas a gente liga o aham e sai andando com pressa.
- Deixa eu ir que eu tô com pressa.
Até agora ela ainda não voltou a falar comigo direito. Mas depois que ela teve essa atitude eu até voltei a amar o meu cão. Não que ele tenha me dado um abraço e agradecido por eu ter fugido daquela vizinha, mas por me fazer refleti sobre a pergunta: quem realmente é o animal irracional nesse mundo? Alguns dias depois eu o chamei: “ Ei, garoto, vem cá... vamos na rua! Vamos passear!” e ele não veio. Apenas Julia, animada como sempre. “Dumbo, o que você tem? Por que não está subindo na cama?” Ele chorava de dor. “Mas que dor? Diga-nos, doutor Paulo, o que há com ele?” “ Seu cachorro sofre de dor na coluna. Ele já está numa fase avançada da vida. Por isso recomendo não pegar mais ele no colo, porque na hora da dor ele pode avançar”. Ah! Então é issoo!


Eu não sei se o Dumbo pensa ou se sempre agiu por instintos. Também não sei se eu é que fui irracional de não enxergar a irracionalidade dele. Entretanto, ele nunca deixou de ser o meu cachorro, que mesmo rosnando pra mim estava do meu lado. Por mais que eu o expulse e grite ele não me abandona. Agora, ele sobe as escadas devagar, tem um olhar cansado e não late mais como latia antes. Às vezes eu fico triste ao ver que o meu capetinha envelheceu, mas ao mesmo tempo feliz por tudo que já passei com ele: O animal mais racional que eu já conheci.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Geração X teen

Fala aí pessoal!
Bem ha algumas semanas uma Best Friend minha me encucou com um assunto: A nossa geração. Temos alguma característica marcante? Então atravez de uma idéia no seu blog, ela me fez essa pergunta, o que me fez pensar bastante pra responder. Por fim, consegui tirar algumas conclusões. Eu nem diria conclusoes, porque acho que nenhum assunto desse tipo tem alguma conclusão. Lembrem-se: o objetivo é não ter objetivo, e sim pensar em algo que talvez nunca se tenha pensado antes e que mesmo sem resposta pode mudar a sua vida, as nossas vidas, só pelo fato de ver um ângulo diferente. Enfim, ta aí o texto. Divirtam-se, reflitam, filosofem.



Fomos na sexta, dia primeiro, a uma exposição no CCBB. Foi interessante ver como os artistas expressavam seus sentimentos nas telas diante de uma guerra. Aliais o que seria a arte? Defini-la é um tanto complicado, mas uma coisa é certa: é uma explosão de sentimentos transformados em algo admirável, em algo profundo, filosófico. A exposição se chamava virada russa. Com quadros cubistas mostrando interpretações diferentes sobre a revolução russa. Quase sempre é assim. A arte imitando a vida e vice-versa. Já reparou que nos livros de história sempre tem a imagem de algum quadro pra ilustrar o momento histórico que se está estudando?

Artistas, sempre que deixam uma obra, seja ela literária, musical, teatral, pintada, mostram o que sentiam, com a linguagem e com a visão que se tinha na época. Mas eu me pergunto: daqui a alguns anos, como seremos estudados? Os jovens da era 2000. Caracterizados por... O que? Temos uma característica? Uma geração?

Bem, como jovens que se preze, buscamos o diferente, informação, novidade. Nos dias de hoje o que não falta é acesso a informação. Nascemos praticamente em frente ao computador, a televisão, ouvindo rádio, os vinis já estavam saindo de moda. Descobrimos em segundos, através de uma banda larga, quais são as tendências musicais do norte da Europa, por exemplo, sem ao menos sair do quarto. Sem contar que enquanto o computador baixa todas as musicas ou filmes possíveis, a TV tem mais de 100 canais com seriados, telejornais, novelas, do mundo inteiro.

Diante de tanta interatividade que a nossa querida globalização proporcionou, qual movimento seguir? Acho complicado decidir. Posso dizer ainda que nem se tem mais moda, porque o brega voltou a ser chique, os anos sessenta estão presentes nas roupas, bem como a musica eletrônica no MP3. MP3? Ou seria MP4? 5, 6 ou 7? Iphone, Ipode, Itouch? Não pisque. Porque quando abrir os olhos já vai ter um novo produto, um novo som, uma nova tendência. Mas você também pode voltar ao passado. Os vinis que saiam das lojas quando nascemos, agora voltaram que somos adolescentes. Gostar de Elvis dos anos cinqüenta não te faz mais ser um jovem careta.

A juventude sempre lutou por transformações. Na política, na educação, nos países e no mundo. Isso se refletiu e se reflete na arte. Hoje as transformações, principalmente tecnológicas, vem até nós, e isso também reflete na arte. Mas é tanta diversidade que os movimentos e tendências, da música a pintura, não tem uma característica única. Nossa busca agora é muito mais para nos mantermos ligados a tudo isso do que por uma transformação propriamente dita.Talvez no futuro sejamos estudados como geração X. Porque somos todos mutantes. Temos gostos e aptidões diferentes que tentam entrar em harmonia entre si. X-teen.

domingo, 28 de junho de 2009

Before the Rainbow




Olá amigos! É, eu sei, faz tempo que não passo por aqui. Algumas semanas. Sabem como é: tem vezes que é difícil encontrar inspiração numa bolha. A bolha da rotina. Meu mundinho. Pequeno universo entrelaçado com outros universos. Não, eu não sou astróloga. Tão pouco trago a pessoa amada em três dias, mas eu gosto desse negócio de universo e de universoS também. Apesar do meu não ser tão extenso, ainda consigo me surpreender com alguns fatos que ocorrem. Os detalhes. Aqueles que passam despercebidos, mas que me fazem dar uma de Sócrates. Como: receber presente no dia dos namorados mesmo sem ter um, tirar um oito na matéria de estruturas no técnico (sim, meus olhos quase marejaram de emoção), me encantar ao ir numa bodas de ouro desejando que um dia, depois de 50 anos de casada, meu marido – que eu tenha um! - dance comigo da mesma forma que aquele casal dançava sua valsa: como se fosse a primeira e mais apaixonada vez. Me emocionar ao saber da morte de um grande ídolo, símbolo do pop por três décadas. Thriller nunca foi tão real quanto agora. Piada infame, não. Enfim, na segunda feira tive a felicidade de não passar pela primeira tortura psicológica do ano de um pós P.P.V. (Primeira Prova do Vestibular).

No domingo passado foi a prova da INFRAERO, então não tive o prazer de fazer o 1º E.Q. da Uerj. Como todas as universidades e colégios mais próximos da minha casa estavam ocupados com a dita cuja prova, fui mandada pra UNIVERCIDADE de Ipanema pra prestar o concurso público dos aeroportos brasileiros pra técnico de edificações. Não posso dizer que acordei com as galinhas. Mas eu as acordei, afinal de Madureira a Ipanema na dependência do coletivo pode trazer muitas surpresas, então é melhor prevenir do que remediar. Fomos eu e mamãe.

É incrível como pra mim a essência das ruas muda quando se vai para a zona sul. Consigo me imaginar em outro país. Não vejo pessoas feias. Pode até não haver lugares tão belos assim, mas ao longe, ou entre as brechas de um prédio e outro, posso ver o horizonte e sentir o cheiro do mar. Estava frio, mas o sol se fez presente. A rua era residencial, bem residência mesmo. A mansidão dos lares era como o silêncio daquela manhã. Lembrei do filme “O Mágico de Oz”.

Alguém ai já viu o filme “ O mágico de Oz” de 1939? Ele começa preto e branco. A protagonista, Dorothy, sonhava em conhecer grandes cidades, grandes oceanos. Então ela foge de casa. Acha que lá ninguém a compreende. No caminho da fuga, conhece o Professor Marvel, um homem que enganava as pessoas dizendo que era vidente. Disse à Dorothy que sua tia estava doente por ela ter fugido de casa. Então, na tentativa de voltar para casa, surgiu uma tempestade. Logo que ela entrou em casa, o tornado levantou a casa. A casa rodopiou, rodopiou e aterrissou na Cidade dos Munchkins, no país de OZ, um país distante e colorido. Assim que ela abre a porta de casa e encontra toda essa fantasia, o filme fica colorido.

No meu contexto acho que a porta que ia do preto e branco ao colorido era o túnel Rebouças. Fico encantada assim como a Dorothy. No ônibus do metrô tocava música clássica. Na hora da prova eu até relaxei.
Quando acabei e sai da UNIVERCIDADE fiquei analisando tudo que pensei da ida até aquele exato momento. Finalmente conclui: Ah mas aqui não tem o barulho do trem. Se morasse aqui não teria todas as manhãs a saudação calorosa do vira-lata que mora lá do lado e nos recepciona todo dia. Já me acostumei com o barulho e a vista pra estação de Madureira. E o cinema do Shopping? Na quarta feira é três reais a meia para estudante, sem contar que por lá se encontra tudo que procura em termos de comércio. Também nuca tive problemas com vizinhos mesmo tendo cachorros tão barulhentos. A casa da vovó é fica tão pertinho da minha. Não temos medo de ser assaltados. Há condução pra muitos lugares. E o principal: Qual seria a graça de conquistar a praia nos dias de sol de janeiro se eu a tivesse em todos os meses do ano?



O grand Finale do filme se dá quando Dorothy diz a interessante frase: “Não há melhor lugar do que a nossa casa...”. Repete por três vezes batendo com seus sapatinhos vermelhos. Então some do país de Oz e volta pra casa. Tentei bater com meus tênis, mas achei melhor esticar o braço e fazer sinal pro ônibus.

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