domingo, 6 de dezembro de 2009

Uma outra religião



Eu piso torto. Não é muito perceptível pra quem vê de fora. Sempre foi assim. Nasci pisando pra dentro. Vivia caindo na rua, trocava os chinelos e tinha muitas cicatrizes no joelho. Dia desses fui apostar corrida com um menino mais velho que morava lá na vila. Ele na bicicleta e eu correndo. “Aposto que eu te venço mesmo você na bicicleta”. Cataploft. Não deu outra. Tenho a marca até hoje. Minha mãe me levou a vários ortopedistas pra saber se eu precisava de botas ou o que era preciso fazer. Botas? Não, coloque-a pra fazer ballet. Mãe pra onde você ta me levando? Pra uma escola de dança. Você vai fazer ballet, filha.

Eu já tinha visto algumas bailarinas. Sempre me encantei. Comecei a me imaginar dançando, principalmente quando descobri que no final do ano teria uma apresentação. Tinha seis anos de idade (a mesma idade que eu ganhei o Dumbo – vide postagem do dia 15 de agosto). Tão nova, mas tão decidida: Serei bailarina. O primeiro dia foi um desastre. Não, eu não cai, tropecei ou algo do gênero. Quando eu cheguei à escolinha da tia Marta, tinha ido no dia errado: o dia do jazz. Ah, não tem problema. Hoje você faz jazz, amanhã você vem pro ballet. Cadê a minha avó? Eu quero ir embora. E nisso as lagrimas já me corriam pelo rosto.Acontece que a minha avó me deixou por lá e foi ao salão de beleza, mas não me avisou. Sua avó deve ter ido embora, ela não está aqui – disse a secretária. O que pode passar na cabeça de uma criança de seis anos numa situação dessas. Ela esqueceu de miiiimmm... Me leva pra casa? Depois a vovó apareceu. De cabelo novo.

O segundo dia foi melhor. Agora sim, hoje é o dia do ballet. Eu realmente impressionava. A professora e as estagiarias gostavam de mim: você é flexível, menina! Ai ela é uma gracinha! Ah ela tem talento. Nem ligaram muito pro meu pezinho torto. A primeira apresentação, eu me lembro bem, vestia uma roupinha laranja. Éramos as florzinhas do espetáculo e fomos as mais aplaudidas. O motivo é óbvio: Quem é que não vai aplaudir essas coijinhas tão fofinhas cuti cuti da mamãe?

Quando eu ia completar 9 anos eu tive que sair da escolhinha, por causa do horário da escola (de ensino fundamental agora). Eu fiquei triste, mas prometi pra mim que um dia iria voltar. As crianças são seres aparentemente inocentes e que talvez não pensem em nada a não ser brincadeiras. Porém por dentro tem todo um planejamento e pensamentos tão maduros que chegam a ser melhor que adultos. Ai chega a adolescência e tudo se perde. Eu tinha meus planos e meus pensamentos. Não que ache que era melhor que adultos. Mas já tinha os planos da minha vida feitos.

Não foi bem como eu planejei. Já estava na sexta série e não tinha nem pisado em qualquer escola de dança até o presente momento. Estudava em colégio de freira. Esses colégios de freira sempre querem estimular coisas do tipo leitura, campanhas da fraternidade, feiras da cultura, festas conservadoras. Festas as quais precisavam de dança para diretora irmã Marisa. Eis que surge o concurso: Corpo de Baile. Quinze meninas seriam escolhidas para formarem o grupo de dança da escola e teriam descontos nas mensalidades. Foram 107 inscritas e eu estava entre elas. O teste não foi difícil, mas juntando com o nervosismo e varias pessoas olhando ficou um tanto mais, como posso dizer... Cômico. Pelo menos de minha parte. O teste foi sexta e resultado saiu na segunda. A lista das meninas que passaram tinha sido colocada na porta da quadra e na hora do recreio foi uma muvucada de gente querendo saber o resultado. Eu, baixinha como sempre, nem consegui ver direito tão pouco passar pela multueira de gente. No final do recreio finalmente pude chegar perto da lista e qual o resultado: Não passei.Uma semana depois a professora de dança e educação física veio até mim para contar que eu havia passado em décimo sexto e que uma menina desistiu. Você quer entrar no lugar dela, Ingrid? Sem pestanejar eu disse que sim. Ok, amanhã você vem para os ensaios porque a gente já montou metade da coreografia.


A maioria das meninas eram bonitas. Populares. Faziam dançam desde pequenas. Dançavam muito bem. Eu? Olha, eu tinha uma enorme força de vontade. Perguntei a professora se podia apenas observa-las dançando primeiro e depois tentar dançar. Ah! Não, Ingrid, não há tempo para isso. Entra ali no meio da dança e aprende. O meu primeiro dia foi basicamente tentar aprender a coreografia complexa que já estava pela metade montada e que parecia diversão pra todas elas. E é claro: fiquei atrás pra tentar copiar, mas quem disse que aprendi? Pra deixar a situação ainda “melhor” a professora ainda acrescentou mais passos.

Adolescente é um bicho muito chato, mas pré-adolescente deve ser pior ainda. Que garotas chatas. Muito chatas. Eu não gostava de ninguém. Sempre era excluída. Ainda descobri que me zoavam pelas costas. Elas só falavam de coisas imbecis a meu ver, como matinês, micaretas e garotos bonitos da escola que cagavam e andavam pro mundo. Nos próximos ensaios eu já estava armada. Resolvi que ia aprender a dançar com ou sem a ajuda delas. No dia da apresentação não deu outra. Foi sensacional. Nunca me senti tão bem dançando. Meus amiguinhos da turma vieram me dar parabéns e no recreio as pessoas me reconheceram como a garota do corpo de baile.

O tempo passou e fui aperfeiçoando. Aprendi a dançar ballet, jazz, sapateado, street. Tudo para apresentações das festas da escola. Agora já não tinha mais raiva e até me dava muito bem com as meninas. Nos tornamos uma família. Ok, talvez nem tanto, mas já dava pra se divertir.
Entrei em uma escola de dança perto de casa e consegui melhorar mais ainda. Fiz amigas de verdade que não estavam preocupadas em dançar melhor que eu, mas sim em curtir as aulas de ballet.

No ensino médio eu passei para o CEFET/RJ e tive que sair do colégio de freira. Tive notícias que o corpo de baile continuou mesmo sem a maioria das pessoas, mas nunca foi o mesmo de antes. Ninguém queria mais assistir.


Agora dançar já tinha se tornado uma religião pra mim. Não conseguia mais viver sem. Entrei pra uma das melhores academias da região. Esse sim foi um desafio. Aprender a fazer ballet com professores bailarinos do Theatro Municipal. Era aula todos os dias. Sabem como é eu nunca fui magra e nessas academias você sempre se sente obesa. Esse era o único problema. Porque os professores eram super atenciosos comigo e sempre me disseram que eu era muito boa, mas que precisava emagrecer, emagrecer e emagrecer. Assim eu poderia entrar no grupo de dança deles e viajar para apresentações em outros lugares. Não posso esquecer de citar todas as amizades. Diferente do que muitos pensam das bailarinas, essas não eram nem um pouco metidas.


Em dois anos nessa academia eu consegui dançar dois ballets de repertório e ainda aprender a fazer ballet contemporâneo.

Nunca desisti de aprender nem de tentar entrar para o grupo. Não me arrependo de nada. Mas como tudo na vida o fim chegou. Eram muitas contas a pagar e eu precisava passar no vestibular, pagar um cursinho. Então no início desse ano eu tive que ir lá cancelar a minha matrícula. É claro que eu chorei. Foi um dos dias mais tristes pra mim. Principalmente pelo fato de que os professores disseram que eu entraria no grupo a partir daquele ano.

Ainda me sinto triste quando vejo uma apresentação. Mas feliz. Feliz por saber que eu também já dancei e consegui chegar a um ponto que nunca imaginei chegar. Agradeço sempre a todos os professores de lá que acreditaram e ajudaram na conquista de todo o meu progresso. Não sei se um dia retornarei a fazer minhas aulas, mas toda a felicidade que me proporcionaram nunca será esquecida.


OBS: Eu continuo pisando torto.

sábado, 7 de novembro de 2009

November Rain


Dezembro é sábado. Férias, décimo terceiro, natal e festas de fim de ano, talvez seja isso que dá o tom de fim de semana em Dezembro. Janeiro? Bem, Janeiro é domingo, isso é fato. Aquela preguiça de domingo, de pensar que já já volta tudo de novo, toda a rotina e as promessas de na segunda mudar toda a vida: regime, esforço, trabalho. Mas essas promessas não começam na segunda feira, que neste caso é Fevereiro. Esse mês é uma espécie de segunda feriado de muito sol: dura pouco, você curte bastante, não faz nenhum regime tão pouco pensa em trabalhar. Eu, particularmente, não gosto muito daquela típica festa em que as pessoas fazem o que gostariam de fazer o ano todo. Gosto mesmo é do feriado. Apenas. O puro e simples fato de ser feriado.
A vida começa na terça. Março. Nos últimos anos não tenho visto suas águas. Nem sei mais quando fecha o verão. A quarta vem mais pra frente: Junho e Julho. É a metade. Sensação de estar no meio. Há pouco tempo atrás era o começo, mas daqui a pouco tempo acaba o ciclo. Antes de ontem ainda era segunda, mas depois de amanhã já é sexta. Setembro e Outubro: Quinta. O que dizer da quinta? O que você pensa quando digo: hoje é quinta feira? Apenas um "que bom" vem a minha mente.

Novembro tem clima de sexta feira. Aquela sensação de que falta pouco pra acabar. Mas essa sexta começa chuvosa, por causa do dia de finados. Um tanto triste eu diria. Me pergunto o porque de um feriado para os mortos, se quem “comemora” são os vivos. Esse dia só nos faz pensar e achar que os outros se foram e que ficaremos vivos pra sempre. Todos nós um dia vamos embora. Talvez se houvesse o “dia dos vivos” lembraríamos que existe a morte e aí sim teríamos motivos pra comemorar: o fato de estar vivo, ainda. Esperto foi o meu avô que morreu num dia 3 de Novembro. Aproveitou o seu último feriado pra depois ir dessa pra melhor. Melhor? Não sei. Essa é uma expressão que todo mundo usa, mas ninguém sabe ao certo. Tudo bem que ele nunca voltou pra reclamar (não que eu tenha visto ou ouvido). Acho que o assunto morte e o que vem depois dela é muito pessoal e cada um sabe e acredita na melhor resposta pra entender e consolar-se diante dela.

Em uma entrevista a Michael Jackson perguntaram o que gostaria que fizessem quando ele morresse. Então, respondeu que não pensava nisso. E porque, perguntou o jornalista. “ Eu nunca vou morrer” respondeu Michael. Foi a mais pura verdade. Jackson continua vivo. Em suas músicas ainda tocadas, no seu filme documentá rio, suas danças. Elvis também não morreu. Ou alguém consegue esquecer o talento do astro do rock? E quanto aos missionários? Gandhi ou Madre Thereza. Será que morreram? Acredito que permanecem vivos dentro de tudo que realizaram e todo bem feito na vida de outras pessoas. Essa essência individual é que faz de nós o que somos. É o que se transmite nas ações e atitudes, sejam elas boas ou ruins. Quem determina a nossa morte não se sabe, mas a nossa imortalidade a gente pode decidir. Se vai colocar todo amor,
convicção em que construir, essa energia fica pra sempre. Talvez não seja reconhecida logo, mas sementes plantadas sempre acabam germinando.

A vida não começa quando chega o sucesso. Começa quando a procura da felicidade é fazer aquilo que ama fazer. Sem esperar reconhecimento. Apenas dando o melhor de si. Não começa daqui a dez ou vinte anos. Começa na segunda, na terça, quarta, todos os dias de Janeiro a Janeiro. O que se tem feito da semana? O que se tem feito com a vida? As vezes as pessoas me parecem apenas planejar o amanhã, quando na verdade o amanhã não existe. O que existe é o hoje, o agora. Nosso corpo é como uma cápsula que carrega nossa essência e é instrumento pra que se possa edificar nossas idéias. Um dia essa cápsula se vai, mas o efeito fica. Ou não. Depende do que se faz com cada cápsula. Podemos apenas aceitar o padrão e seguir uma vida vista como normal, esperando a morte chegar. No dia dois de Novembro seremos lembrados e colocarão flores as quais nem vamos conseguir pegar. Mas podemos viver seguindo nossos sentimentos (desde que não prejudiquem ninguém), mesmo que esses não agradem a maioria. Seremos lembrados sempre. E nossa vida continuar. Ou melhor, o efeito da cápsula durar mais tempo.

Então resolvi reeditar essa postagem acrescentando um vídeo de um cara que com certeza faz um ótimo uso de sua cápsula e nao espera o amanhã. video

sábado, 24 de outubro de 2009

O debate perdido.

Atenção: Esse texto é uma ficção. Qualquer semelhança é mera coincidência...




- Alô.
- Alô, por favor a Fulana?
- É ela.
- Ela quem?
- Fulana.
- É, então, eu queria falar com ela, pode ser?
- Então fala.
- Desculpe, mas é só com a Fulana.
- Olha, aqui quem fala É a Fulana, entendeu?
- Ah, sim... Oi Fulana...
- Oi, Beltrana, diga.
- Você vai amanhã?
- Vou.
- Então tá bom. Beijos.
- Calma aí você só ligou pra falar isso?
- Ah tem outra coisa: Dinheiro traz felicidade?
- Quê?
- DINHEIRO TRAZ FELICIDADE?
- Eu não estou surda. Por que a pergunta do nada?
- Do nada não. Do dinheiro.
- Olha, eu não sei... Acho que não...
- Mas e se você estivesse com fome ou sem saúde?
- Ai é uma necessidade básica.
- Não é nada. Outro dia eu fui no hospital público e não tinha todos os remédios necessários... então não é básico.
- Han? Olha tô falando que saúde no geral é básico pra sobreviver. Que nem a comida.
- Mas pra isso tem que ter dinheiro, né?
- Nesse mundo capitalista sim, mas quem sabe se uma pessoa de um país socialista não é feliz?
- Claro que não! A África é um país socialista e ta todo mundo com fome lá!
- OI!?! Olha melhor esquecer tudo isso então.
- Eu vou pesquisar sobre isso... Se é socialista ou capitalista eu não sei... só sei que estão com fome...
- Tá bem, aproveita e pesquisa a diferença entre socialismo e comunismo, porque também tem diferença.
- Você tá fazendo mal criação? Você adora dar umas respostas típicas de adolescente que vai pra fase adulta. Não sabe perder.
- Mal criação? Olha você não entendeu nada... Tá bem, OK!
- OK, o que?
- Ok, o dinheiro traz toda felicidade do mundo.
- AHAA! Sabia que você ia concordar! Então é isso, beijão.
- Tchau.
- Ah! Outra coisa.
- OH, céus. o quê?
- Você perdeu o nosso debate.
- Qual era seu objetivo?
- Tem como você me emprestar um dinheiro?
- Pra quê?
- Pra salvar a África...


sábado, 26 de setembro de 2009

STOP! O mundo parou, ou meu celular sumiu?


11 de Setembro

Perdi meu celular. Puts! Não acredito. Deixei la no curso, tava em cima da cadeira. Foi depois que eu atendi o... o... Com quem mesmo que eu tinha falado? Sei lá. Que horas tem? Onze da noite. Droga, essa hora o curso já fechou. Boa, Ingrid, esquecer o celular no curso na sexta-feira depois da última aula. Parabéns pra mim! O jeito é ligar pra ele, será que alguém pegou? Chama chama e ninguém atende, mas que droga! Peraí, droga não, deve ter ficado na sala mesmo, o inspetor trancou a sala e nem deve ter visto. Amanhã tem simulado. Vou lá cedo, antes que alguém veja e pegue. E agora? Conto ou não conto pra minha mãe? “ Mãe perdi meu celular, no curso...” Claro que não! Preciso de um tom que está tudo sobre controle. “Mãe, olha só, meu celular ficou no curso, mas eu não perdi não, amanhã eu vou buscar ele...” Isso! Assim ela não fica tão nervosa. E se ela quiser me matar? Ai tudo bem. Não precisa de celular no céu. Qualquer coisa eu vou numa sessão espírita e dou comunicação...

12 de Setembro

curso pela manhã:
- Oi, tio, ontem a noite quando o senhor fechou a sala, você viu um celular?
- Ontem? Ah! Vi sim! Era assado assim?
- Não, era assim e assado.
- Ah então não vi não.
-Sabe alguém que tenha visto? Posso ir la na sala procurar?...
E nada. Nadica de nada. Levaram? Será que levaram pra sempre mesmo? Vou ligar pra ele de novo. “O número para o qual você ligou encontra-se desligado ou fora da área de cobertura...” Mas quem diabos inventou de colocar essa vozinha quando o celular está desligado? Não tem coisa mais agonizante. Não podia ser o puro e simples “tu tu tu tu tu...” ou “acabou a bateria, quando carregar ele te liga” ou “ Mais tarde ele te liga” Já dava uma tranqüilizada, mesmo que ninguém ligasse.

- Olha, filha, o jeito é você voltar aqui na segunda, perguntar a quem estava na sala na sexta e confiar na honestidade das pessoas.

Confiar na honestidade das pessoas. Confiar. Honestidade. Pessoas. Não tava conseguindo juntar as três palavras. Mas porque não? Se fosse você que achasse o celular? Você devolveria? Claro! O celular não é meu. Mas nem todo mundo pensa assim né. A esperança agora é a segunda. Segunda-feira. Eu vou achar. Ah! Claro que vou. Ou não vou? Pô, mas foi tão caro. Oh! Céus! Não consigo pensar em outra coisa. E esse fim de semana que não passa, ein...


14 de Setembro
Ah! Finalmente! Segunda. Melhor ainda: já está de noite. Hora de ir pro curso.
- oi, tudo bem? Olha só, na sexta, por acaso você viu um celular por aqui ali no chão, ele era assim e assado...
- Ih, menina, não vi não.
- Gente, alguém viu?
É, perdi. Perdi mesmo. Ah, não queria chorar, mas não to me controlando. É só um celular. Mas era meu. Depois eu compro outro. É, com que dinheiro? O jeito é ficar com esse que minha mãe me emprestou. Ela não pode ficar sem falar comigo durante o dia. Por sinal ela ta me ligando agora. Deve está querendo saber se eu achei o meu. Melhor nem atender, se não ela vai perceber que eu to chorando.

Caramba, ela ta insistindo. To no meio da aula. Ta bom. Vou sair e atender. Pode ser alguém que queira falar com ela, algum amigo, afinal esse número é dela mesmo. “chamada a cobrar para aceita-lá...” Chamada a cobrar? Ah! Ta de brincadeira. Que amigos são esses da minha mãe, ein. E não para de insistir. Quer saber? Vou ligar de volta.

- Alô, quem é?
- Então, você tava ligando pra esse número a pouco tempo... quem ta falando?
- Qual é o seu nome?
- Você por acaso estava ligando pra Ellen?
- Ellen, você estuda no curso Bla bla bla?
- Sim, eu sim. A Ellen não.
- Peraí, quem ta falando?
- Aqui é a Ingrid, que estuda no Bla bla bla e é filha da Ellen. É que esse telefone é dela.
- Ah sim. Aqui é o coordenador do curso da manhã. Então, é que foi encontrado um celular ai no curso no sábado... por acaso é seu?
-SIM SIM... EU PERDI UM CELULAR!!
-Ele é assim assado refogado?
- É ELE MESMOOO!!! AAAHH! QUE BOM QUE BOM!!!
- Amanhã você passa ai no curso de manhã e pega ele.
- Ah pode deixar!! Mas quem encontrou?
- Olha foi um menino da turma do preparatório pra EsPCEx e ele queria te pedir desculpas...
-Ora, mas por quê?
- Porque ele usou seu telefone para fazer uma ligação.
- Ah tudo bem...


E lá fui eu ao encontro do bendito. E dessa vez não estou falando do aparelho. Recuperei, mas não consegui agradecer ao menino. Ele não tinha ido a aula naquele dia. Passei a ir todos os dias no horário das aulas da EsPCEx, mas o “salvador” nunca estava presente, ou chegava atrasado quando eu já tinha ido embora.

Essa semana eu passei lá e o expetor me disse que as aulas do pré militar acabaram e que o rapaz não iria mais ao curso. Eu fiquei muito reflexiva. Ele podia ter levado pra ele o celular, ninguém ia saber. Não. Não o fez. Ainda pediu desculpas por causa de uma única ligação que fez sem que eu autorizasse.

Confiar. Honestidade. Pessoas. Ainda existem. Ainda existem pessoas honestas. E talvez a dificuldade de encontra-las seja porque estamos tão desacreditados do mundo, achando que nada mais tem jeito, que nem percebemos que ainda há pessoas legais. Pessoas que se preocupam se uma coisa encontrada é delas ou não é e quais medidas devem ser tomadas.

Eu ainda não consegui falar pessoalmente com o menino. Só pelo orkut. Uma pessoa aparentemente simples, mas com uma atitude exemplar. Agradeço de coração ao Bruno.
Não só por ter me devolvido, mas por me fazer perceber que o mundo não está perdido, é nos pequenos detalhes que se faz a diferença...

Calma, não fui abdusida!

Olá pessoal.
Primeiro de tudo: Mil desculpas pela demora por uma nova postagem.
Mas com um tecnico, um pre-vestibular, um estágio e um computador com defeito (estou numa lan house...!) fica complicado passar por aqui...
Mas fiquem tranquilos, tenho novidade: todo quarto sábado ou domingo eu estarei postando por aqui, faça chuva ou faça sol!!
Obrigada pelas visitas e mais uma vez desculpem minha ausencia.
beijinhos a todos

sábado, 15 de agosto de 2009

O(s) (Ir)racionais




Pra mim ele tinha que se chamar Brown. Eu ouvi essa palavra nas aulinhas de ingles da escola, mas nem sabia o significado. Meu irmão queria que fosse Scooby." Ah, Victor, você nao tem criatividade, ein." " E você tem? O que significa Brown? Diz ai esperta." Então ficava muda com cara de choro. Mamãe dizia: Vai ser Salaminho, ponto final. Se tratava de um Dachshund, ou melhor, o cachorro salsichinha da propaganda da Cofap. O nosso primeiro cão, quer dizer, primeiro macho já que um mês antes tentamos ter uma cadelinha, mas a Bigol na primeira semana já tinha destruído metade dos nossos sapatos, o pé da minha cama e um pedaço do sofá. Foi para um outro lar. Apesar da pouca convivencia, chorei. Não tem problema, filhinha, a gente vai encontrar um outro cachorro - consolo de mãe.

Tio Dirceu ligou ao saber da história. " Ele ja está aqui em casa, sábado vocês vem pra busca-lo." E lá fomos discutindo pelo caminho o nome do novo membro da familia. A porta mal abriu e ele veio nos recepcionar. Não o tio, mas o cachorro. Era marronzinho, pequenininho e com umas orelhas enormes. Own! Que bonitinho, mamãe! - falei ja pegando no colo. Me mordeu e fugiu de mim logo de primeira. "Dumbo! Não faça isso!" Tia Janyr explicou que por causa das orelhas grandes apelidaram de Dumbo, lembra do elefantinho voador? Sentei no sofá e na inocência da minha tenra idade (6 anos) eu fiquei olhando com os olhos marejados, com ciume do cãozinho que não gostava de mim e que fazia festa a todos da casa. Meu irmão mais velho, que já gostava de implicar comigo, foi logo dizendo: Olha como ele fica feliz comigo, acho que vai me escolher como dono.

E a noite daquele sábado foi assim. Todos os adultos conversavam na sala, meu irmão brincando com alguma coisa que não lembro e eu correndo atrás da atenção do cachorrinho, que me desprezava de longe e rosnava quando eu chegava perto. Por fim, lá pra umas dez da noite, Dumbo dormiu no sofá. Aquele filhotinho mal criado e cheio de vontades conseguia ser a coisinha mais lindinha de se ver quando estava dormindo. Na ponta do pé eu cheguei perto, deitei do lado dele e segurei na sua patinha fazendo carinho, como se fosse um bicho de pelúcia. Dessa vez as gotículas nos meus olhos eram de emoção. "Acho que agora ele vai gostar de mim..." pensei. Quando o danado abriu os olhos e deu comigo, saiu correndo de novo.

Morávamos em uma casa de vila em Cascadura na época. Tinha um terraço enorme e uma piscina que não tinha sido azulejada - no verão meus joelhos viviam arranhados por causa disso. E lá Dumbo construiu seu império, demarcando cada cantinho com muito cuidado pra que ninguém esquecesse que ali habitava um cachorro. Acho que ele levou um pouco a sério o papo de elefante voador, porque da sacada do terraço onde subia para olhar a rua, ele caiu cinco vezes. Passávamos o dia na casa da vovó, só íamos pra nossa casa quando o papai ou a mamãe chegava do trabalho pra nos buscar. O filhote passava o dia todo sozinho no seu vasto espaço, e qual a nossa surpresa quando chegávamos perto da escada que dava pro terraço? Receber na cabeça uma cambuca vazia arremessada pelo cão e uma chuva de latidos. Estava morto de fome e de saudades. Não de mim, obvio. O interessante era que mesmo rosnando pra mim, me desprezando, me desmoralizando na frente das pessoas quando pedia-o para sentar e ele pulava em mim, se eu entrasse na piscina ele entrava também e me puxava para a borda como se quisesse me salvar. Se eu chorasse ele ficava sentado na minha frente com as orelhinhas levantadas ou lambia as minhas mão.



Mudamos pra um apartamento em Madureira. " Vamos ter que dar esse cachorro! Aqui eles não permitem animais." Lá vai choradeira. Abraçava Dumbo todo dia chorando e por incrível que pareça nessas vezes ele não rosnava pra mim. Foi feita uma reunião de condomínio: o cachorro fica ou não? Levando em conta que ele não incomodava tanto e que havia crianças muito mais mal educadas do que ele, sim, ele ficou! " Duuumbooo, você ficaaa!!" e respondia "HALF HALF". São muitas as histórias que passamos com esse cachorrinho, até arranjamos uma companhia pra ele: Julia, a cadelinha que pra não ser jogada na rua ficaria um tempo na nossa casa. Tempo que dura até os dias atuais. Incrível como a presença do sexo feminino muda a vida de um macho. Tibimbim, como o chama minha mãe, passou a ser mais amigável, a latir menos e até ser mais paciente na hora de ir na rua.



Em dias de verão meu quarto virava (e ainda vira) um acampamento. Economia de ar condicionado, todo mundo dorme num quarto só pra aliviar o bolso da matriarca. Desde sempre o Dumbo foi abusado. Deitava na minha cama querendo ocupar todo espaço. Naquela noite eu já estava de saco cheio. “Dumbo desce! Dumbo sai! Dumbo vai pra sua cama!”. Pela madrugada eu o expulsei de vez. Tive uma noite excelente, com a cama só pra mim. Em pleno sono da manhãzinha, aquele bem gostozinho de ter, quando o dia ainda está clareando e nada mais importa. O ar bem frio que refrescava, o edredom macio e o sussurro do silêncio. Nada pode ser melhor. Ei? O que é isso? O ar esquentou de repente? Que cheiro ruim é esse? Oh! Mas de onde vem essa umidade? Acreditem, o capeta em forma de cão fez xixi na minha cabeça.

Agora eu já estava quase completando 18 anos. Faltava menos de um mês. Sexta feira santa e mais uma rotina de levar o cão na rua. Na volta tentei tirar a coleira dele, então peguei ele no colo. Começou a rosnar pra mim. Normal. De repente só senti os seus dentes fincados bem no meu rosto. Um arrannhado no meu nariz e um furo bem pertinho do olho esquerdo.

CHEGA CHEGA CHEEGAA!!! EU NÃO QUERO MAIS ESSE CACHORRO!! DEVOLVE ELE, MÃE! MANDA ELE DE VOLTA PRO SÍTIO DO TIO DIRCEU! EU NÃO AGUENTO MAIS!!

Eu já nem olhava pra ele. Nem sabia qual sentimento eu tinha por aquele animal: se era amor, raiva, ódio. Só sei que passei mais de um mês sem precisar levar ele na rua. Talvez tenha sido um disfarce da minha mãe pra que eu não assassinasse o cachorro. Minha cara ficou igual a do ursinho Pooh: Inchada com dois olhinho pequenos que não abriam direito.



Depois desse dia eu passei a tentar esquecer todo esse pesadelo. Esquecer que tinha cachorro. Levava na rua muito maquinalmente. De uma coisa ele não pode reclamar: eu nunca interrompi na sua liberdade na rua. Late o quanto quiser, espanta os pombos e faz xixi a vontade. Há algumas semanas atrás nas habituais aventuras, a vizinha que vinha com a sua cachorrinha infernal (aquelas pinches insurpotáveis) fez questão de colocar em evidência a sua opinião não solicitada:
- Menina! Você não tem controle sobre o seu cachorro. Você precisa se impor. Seja firme menina conversa com ele. Por isso que ele late: por que você não mostra moral e bla bla bla bla bla...
Nessas horas a gente liga o aham e sai andando com pressa.
- Deixa eu ir que eu tô com pressa.
Até agora ela ainda não voltou a falar comigo direito. Mas depois que ela teve essa atitude eu até voltei a amar o meu cão. Não que ele tenha me dado um abraço e agradecido por eu ter fugido daquela vizinha, mas por me fazer refleti sobre a pergunta: quem realmente é o animal irracional nesse mundo? Alguns dias depois eu o chamei: “ Ei, garoto, vem cá... vamos na rua! Vamos passear!” e ele não veio. Apenas Julia, animada como sempre. “Dumbo, o que você tem? Por que não está subindo na cama?” Ele chorava de dor. “Mas que dor? Diga-nos, doutor Paulo, o que há com ele?” “ Seu cachorro sofre de dor na coluna. Ele já está numa fase avançada da vida. Por isso recomendo não pegar mais ele no colo, porque na hora da dor ele pode avançar”. Ah! Então é issoo!


Eu não sei se o Dumbo pensa ou se sempre agiu por instintos. Também não sei se eu é que fui irracional de não enxergar a irracionalidade dele. Entretanto, ele nunca deixou de ser o meu cachorro, que mesmo rosnando pra mim estava do meu lado. Por mais que eu o expulse e grite ele não me abandona. Agora, ele sobe as escadas devagar, tem um olhar cansado e não late mais como latia antes. Às vezes eu fico triste ao ver que o meu capetinha envelheceu, mas ao mesmo tempo feliz por tudo que já passei com ele: O animal mais racional que eu já conheci.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Geração X teen

Fala aí pessoal!
Bem ha algumas semanas uma Best Friend minha me encucou com um assunto: A nossa geração. Temos alguma característica marcante? Então atravez de uma idéia no seu blog, ela me fez essa pergunta, o que me fez pensar bastante pra responder. Por fim, consegui tirar algumas conclusões. Eu nem diria conclusoes, porque acho que nenhum assunto desse tipo tem alguma conclusão. Lembrem-se: o objetivo é não ter objetivo, e sim pensar em algo que talvez nunca se tenha pensado antes e que mesmo sem resposta pode mudar a sua vida, as nossas vidas, só pelo fato de ver um ângulo diferente. Enfim, ta aí o texto. Divirtam-se, reflitam, filosofem.



Fomos na sexta, dia primeiro, a uma exposição no CCBB. Foi interessante ver como os artistas expressavam seus sentimentos nas telas diante de uma guerra. Aliais o que seria a arte? Defini-la é um tanto complicado, mas uma coisa é certa: é uma explosão de sentimentos transformados em algo admirável, em algo profundo, filosófico. A exposição se chamava virada russa. Com quadros cubistas mostrando interpretações diferentes sobre a revolução russa. Quase sempre é assim. A arte imitando a vida e vice-versa. Já reparou que nos livros de história sempre tem a imagem de algum quadro pra ilustrar o momento histórico que se está estudando?

Artistas, sempre que deixam uma obra, seja ela literária, musical, teatral, pintada, mostram o que sentiam, com a linguagem e com a visão que se tinha na época. Mas eu me pergunto: daqui a alguns anos, como seremos estudados? Os jovens da era 2000. Caracterizados por... O que? Temos uma característica? Uma geração?

Bem, como jovens que se preze, buscamos o diferente, informação, novidade. Nos dias de hoje o que não falta é acesso a informação. Nascemos praticamente em frente ao computador, a televisão, ouvindo rádio, os vinis já estavam saindo de moda. Descobrimos em segundos, através de uma banda larga, quais são as tendências musicais do norte da Europa, por exemplo, sem ao menos sair do quarto. Sem contar que enquanto o computador baixa todas as musicas ou filmes possíveis, a TV tem mais de 100 canais com seriados, telejornais, novelas, do mundo inteiro.

Diante de tanta interatividade que a nossa querida globalização proporcionou, qual movimento seguir? Acho complicado decidir. Posso dizer ainda que nem se tem mais moda, porque o brega voltou a ser chique, os anos sessenta estão presentes nas roupas, bem como a musica eletrônica no MP3. MP3? Ou seria MP4? 5, 6 ou 7? Iphone, Ipode, Itouch? Não pisque. Porque quando abrir os olhos já vai ter um novo produto, um novo som, uma nova tendência. Mas você também pode voltar ao passado. Os vinis que saiam das lojas quando nascemos, agora voltaram que somos adolescentes. Gostar de Elvis dos anos cinqüenta não te faz mais ser um jovem careta.

A juventude sempre lutou por transformações. Na política, na educação, nos países e no mundo. Isso se refletiu e se reflete na arte. Hoje as transformações, principalmente tecnológicas, vem até nós, e isso também reflete na arte. Mas é tanta diversidade que os movimentos e tendências, da música a pintura, não tem uma característica única. Nossa busca agora é muito mais para nos mantermos ligados a tudo isso do que por uma transformação propriamente dita.Talvez no futuro sejamos estudados como geração X. Porque somos todos mutantes. Temos gostos e aptidões diferentes que tentam entrar em harmonia entre si. X-teen.

domingo, 28 de junho de 2009

Before the Rainbow




Olá amigos! É, eu sei, faz tempo que não passo por aqui. Algumas semanas. Sabem como é: tem vezes que é difícil encontrar inspiração numa bolha. A bolha da rotina. Meu mundinho. Pequeno universo entrelaçado com outros universos. Não, eu não sou astróloga. Tão pouco trago a pessoa amada em três dias, mas eu gosto desse negócio de universo e de universoS também. Apesar do meu não ser tão extenso, ainda consigo me surpreender com alguns fatos que ocorrem. Os detalhes. Aqueles que passam despercebidos, mas que me fazem dar uma de Sócrates. Como: receber presente no dia dos namorados mesmo sem ter um, tirar um oito na matéria de estruturas no técnico (sim, meus olhos quase marejaram de emoção), me encantar ao ir numa bodas de ouro desejando que um dia, depois de 50 anos de casada, meu marido – que eu tenha um! - dance comigo da mesma forma que aquele casal dançava sua valsa: como se fosse a primeira e mais apaixonada vez. Me emocionar ao saber da morte de um grande ídolo, símbolo do pop por três décadas. Thriller nunca foi tão real quanto agora. Piada infame, não. Enfim, na segunda feira tive a felicidade de não passar pela primeira tortura psicológica do ano de um pós P.P.V. (Primeira Prova do Vestibular).

No domingo passado foi a prova da INFRAERO, então não tive o prazer de fazer o 1º E.Q. da Uerj. Como todas as universidades e colégios mais próximos da minha casa estavam ocupados com a dita cuja prova, fui mandada pra UNIVERCIDADE de Ipanema pra prestar o concurso público dos aeroportos brasileiros pra técnico de edificações. Não posso dizer que acordei com as galinhas. Mas eu as acordei, afinal de Madureira a Ipanema na dependência do coletivo pode trazer muitas surpresas, então é melhor prevenir do que remediar. Fomos eu e mamãe.

É incrível como pra mim a essência das ruas muda quando se vai para a zona sul. Consigo me imaginar em outro país. Não vejo pessoas feias. Pode até não haver lugares tão belos assim, mas ao longe, ou entre as brechas de um prédio e outro, posso ver o horizonte e sentir o cheiro do mar. Estava frio, mas o sol se fez presente. A rua era residencial, bem residência mesmo. A mansidão dos lares era como o silêncio daquela manhã. Lembrei do filme “O Mágico de Oz”.

Alguém ai já viu o filme “ O mágico de Oz” de 1939? Ele começa preto e branco. A protagonista, Dorothy, sonhava em conhecer grandes cidades, grandes oceanos. Então ela foge de casa. Acha que lá ninguém a compreende. No caminho da fuga, conhece o Professor Marvel, um homem que enganava as pessoas dizendo que era vidente. Disse à Dorothy que sua tia estava doente por ela ter fugido de casa. Então, na tentativa de voltar para casa, surgiu uma tempestade. Logo que ela entrou em casa, o tornado levantou a casa. A casa rodopiou, rodopiou e aterrissou na Cidade dos Munchkins, no país de OZ, um país distante e colorido. Assim que ela abre a porta de casa e encontra toda essa fantasia, o filme fica colorido.

No meu contexto acho que a porta que ia do preto e branco ao colorido era o túnel Rebouças. Fico encantada assim como a Dorothy. No ônibus do metrô tocava música clássica. Na hora da prova eu até relaxei.
Quando acabei e sai da UNIVERCIDADE fiquei analisando tudo que pensei da ida até aquele exato momento. Finalmente conclui: Ah mas aqui não tem o barulho do trem. Se morasse aqui não teria todas as manhãs a saudação calorosa do vira-lata que mora lá do lado e nos recepciona todo dia. Já me acostumei com o barulho e a vista pra estação de Madureira. E o cinema do Shopping? Na quarta feira é três reais a meia para estudante, sem contar que por lá se encontra tudo que procura em termos de comércio. Também nuca tive problemas com vizinhos mesmo tendo cachorros tão barulhentos. A casa da vovó é fica tão pertinho da minha. Não temos medo de ser assaltados. Há condução pra muitos lugares. E o principal: Qual seria a graça de conquistar a praia nos dias de sol de janeiro se eu a tivesse em todos os meses do ano?



O grand Finale do filme se dá quando Dorothy diz a interessante frase: “Não há melhor lugar do que a nossa casa...”. Repete por três vezes batendo com seus sapatinhos vermelhos. Então some do país de Oz e volta pra casa. Tentei bater com meus tênis, mas achei melhor esticar o braço e fazer sinal pro ônibus.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

prevendo o presente


Na minha transição da infância para a adolescência, a freqüência que eu arrumava o meu armário era de quase zero rpm (repetições por milênio). Imaginem vocês aqueles armários de filmes e seriados americanos, os quais ao abrir a porta uma montanha de coisas vinha a baixo. Era mais ou menos isso. Mas assim como os pokemóns assistidos nos desenhos naquela época, eu também evoluí. Hoje uso os cabides e ainda dobro as roupas nas gavetas. A freqüência passou pra pelo menos dois rpm (repetições por mês). Pasmem. Ainda vejo uma lagriminha e um brilho de emoção nos olhos da mamãe quando ela diz “vai arrumar o armário, filha?”.

É engraçada a fase dos 12 anos. No meu dicionário PRÉ-adolescência quer dizer PREtexto para fazer coisas de adulto, mas continuar isento das responsabilidades como as crianças. Em meio a frases maduras do tipo “Ei, me respeite, já sou pré- adolescente” e revistas coloridas e caras que falavam sobre “grandes” ícones mundiais como Avril Lavigne, eu, inventei de seguir um conselho que li numa dessas revistas: A caixinha das recordações. Então desde 2003 tenho essa caixa, na qual encontram-se desde fotos até ingressos de cinema de todos os filmes que vi. Medalhas, cartas, pulseiras arrebentadas e até a embalagem do meu primeiro celular.

Os anos passam e o poço de nostalgia continua lá no fundo do meu armário. Dia desses, fazendo uma poderosa arrumação, daquelas quase chegando em Nárnia, resolvi pegá-lo para ter meus idolatrados momentos saudosistas, só pra variar. Papel cá, papel lá e o que eu encontro? Um vale transporte no valor de um real e quarenta centavos. Na mesma hora lembrei do preço atual da passagem. Naquela época estava bem longe de ser uma expert em economia, até hoje por sinal, mas lembro que quando guardei esse vale tinha pensado “vou guardar esse vale pra um dia eu lembrar o quão mais barato era a passagem”. Um pouco depois, acho que no mesmo ano, a passagem foi para um real e sessenta centavos. Até que a minha previsão estava certa. Semana passada meu riocard foi cancelado como o de muitos outros estudantes, venho sentindo no bolso o absurdo do preço da passagem e realmente sentindo falta desses oitenta centavos a mais que teria se ainda pudesse usar vales como este.

Isso porque são ônibus comuns, cheios, com motoristas e trocadores mal humorados. Nos mais bonitinhos com ar condicionado além da passagem ser mais cara, eles não aceitam o valioso riocard. “Desce, menina, estudante não pode nesse não, espera outro...”. Ou seja, agora além de ser excluída da gratuidade do trem sou excluída da gratuidade do ônibus também. Não gostaria de voltar a época dos meus 12 anos não. Sou feliz hoje em dia com todo o conhecimento que adquiri e com meu amadurecimento também, mas se as passagens pudessem voltar a ser como eram naquela época com certeza eu não guardaria nenhum vale, e sim aproveitaria todos. Pensem comigo: pagando 4 e 40 por dia para ir e voltar da escola me faz gastar no final de cinco dias 22 reais. Se fosse 2 e 80 por dia no final da semana eu teria gastado 14 reais. Uma economia de 8 reais! Pode parecer pão durisse pra alguns, mas imagina se contarmos todos os outros aumentos seja de passagem, pão e até mesmo roupas? Por enquanto o que me resta é continuar estudando, ou pelo menos tentando. Mas acho que vou guardar os vales de 2 e 20, pra um dia eu lembrar o quão mais barata era a passagem...

domingo, 31 de maio de 2009

Uma outra galáxia


- Tchau. Até amanhã.
- Tchau... Até amanhã?
- É... Ah, não. A gente não estuda mais junto. Tinha me esquecido.
- Hah! É, eu também esqueço às vezes...
- Como tá a faculdade?
- Normal. Tenho um trabalho pra amanhã.
- Ué? Deu pra estudar agora?
- Vida de vagabundo um dia acaba. Faculdade tem que levar a sério. Mas e o pré-vest?
- Ta indo. To estudando bastante também... Então, vou nessa.
- É, eu também.
- Até algum dia então, né
- Até.


Pois é, este diálogo foi totalmente inventado por mim, mas foi inspirado em várias conversas minhas com meus amigos este ano. O terceiro ano acaba e toda a convivência com eles termina, ou se reduz muito. A gente até esquece que na segunda não vai acordar cedo ir pra escola e vê-los novamente. Alguns na faculdade, outros no pré vestibular, muitos trabalhando. Seria muita pretensão minha conseguir postar aqui todas as minhas histórias e descrever todo o meu sentimento.

Minhas aventuras cefetianas começaram em 2006. Minha rotina era me surpreender todos os dias. Um verdadeiro universo que encontrei. Cheio. Cheio de gente, cheio de histórias, cheio de loucos. A principio você sempre acha que está no lugar errado. Seja pelas pessoas, seja pelo curso técnico, seja pelo lugar mesmo. Nunca sabia onde era tal bloco, ou tal prédio. Típica caloura. Depois passei a andar em bando. Tudo era mágico. O bosque. O bloco E. “Eu posso mesmo sair da aula se eu quiser?” “Ei onde está o boletim?” E por ai vai. Perguntas que só se respondiam com a vivência naquele semi- Éden. Lidar com a liberdade e com a responsabilidade é fator primordial no primeiro ano. Ser livre parece ser tão novo que muitos acabam se perdendo. Se perdendo das notas, das matérias, dos trabalhos.

As piadas mais engraçadas, na minha opinião, são as internas. Aquelas que só existem porque entre você e alguém existe um código, um fato que ocorreu no qual estavam juntos. E quantas vezes me pego no curso (pré-vest) soltando uma dessas? Todos me olham com caras estranhas “do que ela está falando?” Imediatamente mudo de assunto, pois lembro que ali não é o CEFET, e aqueles mal sabem do contexto daquela piada. Fora as vezes em que, diante de uma situação, penso: “Ah se o fulano estivesse aqui ele diria isso. Se o siclaninho estivesse aqui, também, diria aquilo...” Quando se convive muito tempo com alguém ou pessoas que se goste, parece que uma identidade entre elas se forma. Olhares, gestos. Pra que palavras?

Fala um pouquinho aqui. Lembra de uma história ali. A saudade é assim. Começa devagar. Nem se percebe. Quando vê, a nostalgia se alastrou. Revê-los num sábado no aniversário de um deles foi quase o mesmo que rever a família. Não precisamos dizer que nos amamos o tempo todo. Está subentendido nos abraços e até nas piadas internas. “Pega o violão, vamos cantar.” “Los hermanos?” Apesar de meses um tanto afastados, nossa amizade continua sendo como um universo mesmo. Continua a se expandir a cada dia. Novas descobertas são feitas. Mudamos juntos. E como disse no discurso da colação, hoje não é a Ingrid que vos fala, mas sim a Ingrid, a Anna, o Marcos, o Pedrinho, o Ricardo, o Leon, o Michel... Sem contar os professores. Os amigos mais velhos. As aves que planam tão lindas no céu e nos inspiram a voar tão alto quanto elas. Uns se esforçavam pra que acreditássemos na nossa glória. Outros na nossa desgraça. Todos admiráveis. Dignos de serem lembrados.

É, eu sei. Está super nostálgico esse texto. Mas a nostalgia é a maior inspiradora do meu mundo das idéias. Esses tempos ficaram pra sempre na minha memória. Tempos de alegrias, tristezas, desesperos, gargalhadas de bar e, claro, aprendizado.

sábado, 23 de maio de 2009

Exatamente humano e humanamente exato



Físicos se dizem fazer parte de uma ciência exata. Pelo menos nas provas específicas consideradas exatas a física está presente. Eles falam de superfícies sem atrito, velocidade média constante, sem resistência do ar. Um verdadeiro conto de fadas. Os químicos fazem muitos experimentos. Muitas substâncias. Muitos átomos. Até calculam quantos deles podem existir numa quantidade de certo líquido. Algum químico já viu um átomo? E matemática? F de x é igual a zero. Que F de x é esse? Tem um conteúdo chamado limite, mas os cálculos são feitos com x tendendo ao infinito.

História, Geografia. Você nunca pode afirmar nada. Tudo é relativo. Depende do referencial. Ué, agora virou física? Talvez biologia. Mas tem suas exceções. Exceção exceção espécie espécie. Melhor voltar pra matemática, que tudo é exato. Raíz de quatro não é dois. É mais ou menos dois. Putz! Que tal química? Qual a ordem de grandeza do número de mols presente na substância após passar pelo aumento de temperatura? Ordem de grandeza é igual a: deve ser bastante coisa. As questões da UERJ são interdisciplinares. QUÊ??

Ah! Vestibulana em crise. É sou mesmo. Simulados simulados. A gente fica até pensando mais na vida, no futuro e principalmente: Eu vou passar? Não assim. Porque agora tem o cursinho. Tem a forma culta de se expressar. Oh! (interjeição) senhor, que foi usado como pretexto para a igreja católica enganar seus fiés por tantos anos até que ocorresse a reforma protestante, conseguirei eu passar pelas etapas de provas que avaliarão meus conhecimentos? Livrai-me da Estácio e da Univercidade. Amém. Lei de Murphy nem pensar. É incrível que até as piadinhas mudam. Sabe o que a vaca foi fazer no espaço? Procurar o vácuo. Se a teoria de Lamarck (uso e desuso) desse certo, você não tinha mais cérebro. Vestibular. Do latim vestibularium (vesti = você não vai se divertir; bularium = estudar sexta, sábado e domingo).

Ainda há o efeito baleia branca. Nada de praia: ficar branca. Ansiedade: comer, ficar gorda.
Mas tem que ser forte. (Não como a baleia.) Afinal ele está chegando. Ele. O bicho de sete cabeças. Na verdade, 200 questões. Seu pseudônimo: Novo Enem. Não é pra entrar em crise? Outro dia na hora do intervalo vi um amigo meu cumprimentar uma outra menina:
- Fala aí, exatas!
-Tudo bem, humanas?
A gente se transforma naquilo que pretende prestar. Os de humanas são todos uns incapazes de fazer contas. Os de exatas não sabem fazer uma redação. Estereótipos, rótulos. “Vai tentar letras?(risos)”. “Vai tentar psicologia? Ih! Vai ficar maluca.” “Mais?” “Comunicação social? Ai! É muito concorrido.” Todo mundo insiste em dar um pitaco.

O negócio é tentar não pirar e fingir que sua relação candidato vaga é igual a musica/órgão (0,17). Mas até que esse ano tem sido interessante. Saber o quão você não sabe e precisa descobrir. Estudar é sempre bom. Conhecimento é indispensável. É bacana e bastante reflexivo. Fantástico. Sobre pressão, nem rola. Aliais amanhã eu tenho que assistir o Fantástico. Vai que tem notícia do vestibular?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Cálice




Aqui em casa, pelo menos umas cinco vezes por semana, minha mãe sempre faz uma faxininha. É uma poeirinha que ela tira aqui, um paninho que ela passa ali, mas é claro que existe a faxina MOR! Exatamente. Um dia especial é escolhido pra big arrumação. Isso me preocupa um pouco porque quase sempre eu sei que alguma coisa minha vai sumir. Sou a pior das bagunceiras, assumo, mas sou consciente de onde deixo as coisas. Enfim isso não vem ao caso. O fato é que quase sempre é ao som de uma musica bem alta que ela se dá. A matriarca é bem alegre. Sim ela coloca quase sempre Ivete Sangalo. Algumas horas de concentração nos estudos sempre são perdidas, tudo por causa da “poeira, poeira”.

Na quarta feira foi diferente. Estava eu no quarto adiantando alguns estudos antes do som começar e da bagunça se arrumar, quando escuto um “estava à toa na vida, o meu amor me chamou pra ver a banda passar cantando coisas de amor...” Oh! Claridade na escuridão. Longe de mim dizer que Ivete não é bacana de ouvir, mas é que sempre, fica um pouco cansativo. Não sei porque, mas aquilo me deixou mais empolgada nas leituras. Quando escuto Chico Buarque eu me sinto inteligente, culta e tenho uma louca vontade de estudar história do Brasil. Lembrei das ditaduras e da sagacidade do nosso artista com as palavras só de ouvir um “Pai! Afasta de mim esse cálice”.

É até clichê dizer que Chico Buarque é genial, mas hoje em dia tudo é clichê. Até tentar não ser clichê é clichê. Dizemos que fugimos das mesmices, mas quando nos damos conta lá estamos nós fazendo as mesmas coisas na mesma rotina de sempre. O pior não é isso, mas sim quando ver alguém fazendo algo diferente dizer: “é um maluco!” “ É um desocupado...”
As pessoas estão a cada dia mais forçadas. Nos sentimentos, nas ações. O “eu te amo” virou bom dia dito a qualquer um que passa. Nem preciso citar as novelas da Globo, nas quais no final o fulaninho malvado morre e o casal principal termina junto sorrindo tomando Molico num apartamento em frente a praia. O que mais espanta é que a maioria das pessoas já tinha lido aquilo uma semana antes nas revistas de resumo das novelas, e já viram aquele final centenas de vezes em outras novelas, mas ainda mesmo assim telespectadores se encantam e acham o desfecho totalmente imprevisível.


O que quero dizer é que por muitas vezes toda essa mesmice inibe a nossa criatividade. Sim. O medo de sermos censurados, por não sermos previsíveis. Não a censura da época do Chico, na qual se corria risco de morrer. A censura imposta pelos clichês da sociedade. A morte é da nossa vontade de mudar. Uma roupa diferente que seja bacana pra você pode causar incomodo em muitos outros, que através de olhares e risinhos vão rejeitar o que vêem. Não que se deva ligar para opiniões alheias, a vida é sua. Mas percebe quanto que o inovador ou o diferente causa reação de incomodo nas pessoas? E provavelmente o próximo passo é o preconceito, manifestados nos mínimos detalhes. A vida é feita de detalhes. Nem sequer tentar entender porque aquilo é diferente. Causou desconforto, é melhor pensar ser coisa de maluco e normal é quem continua a ser igualzinho, seguindo sempre a rotina, os padrões.

Segundo o Wikipédia:
Censura é o uso pelo estado ou grupo de poder, no sentido de controlar e impedir a liberdade de expressão. A censura criminaliza certas ações de comunicação, ou até a tentativa de exercer essa comunicação. No sentido moderno, a censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão, como certas facetas da arte. O propósito da censura está na manutenção do status quo, evitando alterações de pensamento num determinado grupo e a consequente vontade de mudança.

“Pai! Afasta de mim esse cálice”.

Não tenho uma boa conclusão pra esse assunto. Vai ser sempre uma reflexão contínua na minha cabeça. Mas uma coisa eu sei que é garantia: Alterações de pensamento vão estar sempre ocorrendo. Seja na minha cabeça, seja na cabeça de qualquer um. Nenhuma censura se sustenta. Nem as que aceitamos que existam. Nem as que nós nos impomos. Nem as que nós rejeitamos. Porque o progresso é inevitável. Nem todos os botões de flores se abrem na primavera, mas todos eles um dia abrem.

domingo, 10 de maio de 2009

Brilho eterno de uma mente COM lembranças...




Essa semana, finalmente, assisti o filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Pra quem gosta do Jim Carrey além de suas caras e bocas de “Ace Ventura”, eu recomendo. Não vou estragar o prazer de ninguém contando o final, mas colocarei a sinopse só pra ninguém ficar perdido no que eu vim falar.

Sinopse: Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento entre ambos desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa.
(tirado do site www.cinemacomrapadura.com.br)

Isso me lembrou a noticia que falava de cientistas que apagaram a memória de roedores traumatizados, ou seja, eles estão estudando formas para apagar traumas na memória primeiro de roedores e depois testar nos seres humanos, mas ainda não sabem se isso pode afetar o cérebro.

É claro, lógico e evidente que a minha imaginação que é, ironicamente falando, pouco fértil, começou a funcionar e assim imaginar um mundo em que pudéssemos apagar da memória tudo o que quiséssemos sem se importar com as questões éticas e morais -Tem coisa que a gente esquece mesmo sem experiência cientifica, como por exemplo: comprar o presente do dia das mães. Iniciei por mim mesma obviamente, fazendo uma lista de coisas que seriam interessantes esquecer: brigas, equívocos, esporros, micos, e até mesmo todas as vezes que me chamaram de cabeça dura (!) um tanto infantil, diria, mas na ignorância todos somos infantis.

Depois passei para os traumas das pessoas que perderam seus entes queridos, grandes amores que terminaram, filhos que perderam suas mães (esses talvez usariam no dia de hoje), seus pais e até mesmo as monstruosas guerras e doenças que atingiram a toda humanidade. Traumas. O que pra alguns pode não parecer nada, pra outros são verdadeiras torturas psicológicas de acordo com suas verdades e quem sabe apagá-las da memória seria uma boa solução?

O filme ia e vinha na minha mente o tempo todo. É assim que vejo quando alguma coisa foi legal de verdade pra mim: quando gosto de relembrar. Todos os momentos felizes que Joel passa com Clementine vão se apagando. Tudo para esquecer um relacionamento que não deu certo. Ta ai. Todos os momentos felizes apagados em função de algo ruim que aconteceu. Vale a pena? Será que vale esquecer todos os bons momentos com alguém só pra esquecer os ruins? E o que determina ruim? O que determina sofrimento? Qual a função da dor? Sabe, se eu esquecesse todas as vezes que me criticaram, que me chamaram de cabeça dura, dos esporros que tomei, dos meus traumas em geral, talvez eu nunca amadureceria talvez eu nunca refletiria no que é necessário pra que eu me torne uma pessoa melhor e talvez eu novamente cometesse os mesmos erros, tomasse os mesmos esporros, e criasse os mesmos problemas. Não paramos de pensar em momento algum. As idéias se renovam sem ao menos percebermos e quando nos damos conta entendemos que foi bom passar por certas dores. O progresso é inevitável. Esquecer os traumas seria também esquecer o aprendizado e a oportunidade de crescer moralmente.

Mas é claro que nem todo mundo pensa assim e provavelmente haveriam desmemoriados sempre. Não obrigo a ninguém a pensar desse jeito. Cada um tem a sua dor e cada um sabe da necessidade, ou não, de passar por ela. Acredito que esquecer tudo de ruim que já nos aconteceu não é tão válido quanto pensar no porque aquilo foi ruim pra nós. A dor é como a febre que nos alerta que algo em nós está errado e que precisamos mudar. Tomar a vacina. Criar anticorpos. Talvez a felicidade não seja a ausência de traumas ou problemas, mas sim a habilidade de lidar com eles. A dor pode existir, mas o sofrimento depende de cada um. Pra mim não é fácil ter um pensamento otimista de imediato quando passo por uma situação ruim. Sou imediatista. Mas é começando a refletir e filosofar na teoria que a gente tenta colocar na prática.

Espero não ter ofendido, nem desrespeitado o trauma e o psique de ninguém. Não é preciso concordar. Só trocar.
“ A mente que se abre a uma nova idéia jamais retorna ao seu tamanho original.” (Albert Einstein)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ordens da empresa





“ Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer...” Foi ao som de Rita Lee que acordei hoje. Era meu celular tocando as seis e quarenta da manhã me avisando que dezoito primaveras se completavam pra mim. Na verdade só seriam dezoito mesmo as dez e vinte, mas um certo indivíduo (muito querido por sinal, apesar de tudo) queria que eu tivesse o privilégio de acordar àquela hora da manha no dia do meu aniversário. É lógico que eu desliguei o celular e voltei a dormir. Dormir? Tentar dormir. Porque o cachorro que me adora também queria que eu acordasse cedo, então lá fui eu fazer a vontade daquele que recentemente me fez dois furos no rosto com os dentes. Obrigada, Nebacetin.
Obs: Nebacetin é o nome da pomada que me livrou de cicatrizes, não o nome do cachorro.

Tomei minha aguinha de berinjela (uma das invenções mirabolantes da mamãe), fiz uns exercícios e mais algumas coisas que eu não lembro - já são dezoito anos, minha memória tem direito de falhar. Estava feliz e me preparava para ter um dia legal ao lado dos meus amigos que até me fizeram um bolo. Então “nada vai me estressar hoje”. Ai! Mas que pensamento ingênuo. Para chegar mais rápido ao colégio eu resolvi pegar o trem. Essa palavra te causa um certo pânico? Trem. E agora? Sentiu um arrepio? Pois digo que nem depois de três anos, todos os dias, assiduamente nesse transporte eu deixo de ter uma surpresa. Seja dos colegas de vagão. Dos funcionários educados. Ou o ambiente arejado. Não me acostumo.


Ainda assim estava feliz por estar na estação: “oba, vou pegar o trem e chegar mais rápido...”. Tenho uma mania, recente diria, de tirar fotos de coisas e ambientes meio “nada a ver” ou que ache que precisam ser guardados na memória. Mesmo que seja de um lugar horrível. Mas quando olhar a foto vou lembrar do momento. Puro saudosismo, sei, mas gosto. Então tirei foto das pessoas na fila. Voltando a situação, ao chegar na estação me deparo com uma fila enorme, maior ainda na gratuidade, a qual eu tenho direito com o cartãozinho. A menina da frente, que também tem direito a gratuidade foi barrada: a mulher, transbordando educação, tomou o cartão dela, não lhe deu uma passagem e disse que não podia fazer nada se ela não tinha dinheiro para ir para escola. Então chegou a minha vez. Sem nem olhar para o meu cartão, a moça disse: “seu cartão venceu a validade”
- como, se você nem olhou?
- Venceu. Você vai ter que fazer outro. Ordens da empresa.
- De novo? Eu refiz o meu no final do ano passado? Você não vai me dar uma passagem?
- Não. Ordens da empresa.
E o que é que eu tenho a ver com as ordens da empresa?? Eu trabalho na empresa? Eu só queria ir para escola. “OK” pensei, não ia deixar isso me abalar. Pago a passagem e fica tudo certo. Puxei uma nota de cinqüenta reais. A única que eu tinha, pra pagar uma dívida de trinta e cinco.
- Olha, não tenho troco não.
- E ai?
- Vê aqui do lado. Se ele não tiver a gente não pode dar a passagem.
- Já sei. Ordens da empresa. Ok, você não tem culpa.
E lá fui, encarar outra fila. Só queria chegar mais rápido. Só.
Segundo caixa:
- Não tenho troco.
- E ai?
- Por ordens da empresa eu não posso dar uma passagem pra cinqüenta reais.
E eu me perguntei: Será que se ele fizer isso a empresa vai explodir a cabine dele?
- Poxa vida!! Vocês não aceitam meu cartão, não aceitam que eu pague. E ai? Eu vou ficar sem ir pra escola por causa de vocês??
- Olha eu vou quebrar o seu galho. Mas eu não podia fazer isso por ordens...
-AH! Muito obrigada moço. Desculpa fazer você quebrar as ordens da empresa, mas eu só queria ir pra escola.


Dei uma corridinha. Pra pegar o próximo trem? Não. Fiquei com medo da cabine explodir.


Mais dez minutos de espera até que o trem chegasse. Então avistei na plataforma a menina que estava na minha frente e foi vítima do excesso de educação da funcionária. Ela estava chorando e eu que gosto de dar uma de justiceira fui lá falar com ela. “Você não pode se sentir assim não. Eles são ridículos mesmo, já é a segunda vez que tomam meu cartão...”
Antes que eu continuasse ela interrompeu dizendo que não estava chorando por causa daquilo. E a minha cara? Mas ela foi legal, continuou o assunto e vejam que coincidência: todas as suas histórias de trem eram super parecidas com as minhas e provavelmente de muitas outras pessoas, ou melhor, muitos outros estudantes. E ainda dizem que estudante é tudo vagabundo. Nunca vi vagabundo passar por isso tudo pra estudar. Olha que a gente ainda corre o risco de tomar umas chicotadas por Madureira. Estilo “ A lista de Schindler” mesmo. Apesar de que se jogassem água na gente, quem sabe não ficava mais fresquinho? Até porque tem que estar num dia de sorte pra pegar um trem com ar, né, Santa cruz?


Enfim, fiz uma nova amizade. Depois disso o dia foi ótimo. Ao lado dos amigos, falando besteiras, comendo besteiras, comemorando meu aniversário num estilo assim, bem estudante mesmo.

sábado, 2 de maio de 2009

Desabafo

Incrível como a cada dia me surpreendo com as coisas da vida. Acontecimentos no meu mundinho como acontecimentos mostrados em jornais internacionais me deixam muito reflexiva. Eu não tenho o poder das palavras. São como um córrego na minha cabeça. Passam correndo e quando vejo já me perdi na idéia. “ O que eu ia dizer mesmo?” frase típica e corriqueira pra mim, mas isso não me impede de ter uma opinião. Um tanto confusa por muitas vezes, mas não no caso que aqui vou retratar. Peço desculpas primeiramente. Desculpas por não redigir um texto tão mirabolante com uma visão crítica, política e analítica da coisa. É apenas a minha opinião. Simples, como as minhas palavras, mas que tem um valor pra mim e que eu preciso colocar pra fora.
Bem, comecemos pelos fatos. Pra quem está atento aos jornais já devem saber da explosão que aconteceu próximo ao colégio CEFET que fica em frente à estação do metrô Maria da Graça. Houveram quinze feridos e cinco em estado grave. Dentre esses cinco, uma amiga minha de longa data está incluída. Eles foram levados a hospitais públicos, que por incrível que pareça, são bem equipados para casos de queimaduras. Digo por incrível que pareça com certa tristeza. Pra onde vai o dinheiro dos impostos que pagamos? Não deveria a saúde ser uma prioridade? Os noticiários tem mostrado algo tão precário nesses hospitais, que é difícil ficar tranqüilo quando se sabe que alguém que você gosta muito está num lugar desses.
No feriado da sexta feira, fomos eu e minha mãe fazer uma visita. Nossas famílias também são muito amigas, nossa preocupação era tão frenética quanto a deles. Enfim veio o absurdo. Absurdo sim. Uma falta de respeito eu diria. Minha amiga estava no quarto sem supervisão alguma. Um doente de camisola chegou até ela e disse meia dúzia de incoerências, devia estar sob o efeito de remédios, mas isso não o impediu de roubar a comida que estava no colo dela. A menina chamou por alguém por várias horas e ninguém veio socorrê-la. Sua mãe descobriu ainda que ao seu lado, no mesmo quarto, estavam dois bandidos algemados.
Felizmente até o fim do dia, eles, os pais, conseguiram transferi-la para um hospital particular bem equipado e com segurança também. Isso deixou, não só a eles mas a nós aqui de casa também, um alívio indescritível. Agora ela está bem. Entretanto eu ainda fiquei pensando em toda essa situação. E as pessoas que não podem ir para uma instituição particular? Será que estas tem o direito de não ficar a mercê de um louco que rouba a comida dos pacientes e de enfermeiras que não dão a mínima? Uma vez li no jornal que um político desses qualquer passou a se preocupar com as calçadas quebradas depois que sua mulher quebrou o salto andando por uma delas. Será necessário que a família dos responsáveis pela saúde passem por uma situação parecida com a de minha amiga para começarem a se preocupar e fazer algo para mudar a situação dos hospitais e da saúde pública?
As vezes acho que vivemos em um mundo de faz de conta. Faz de conta que temos educação, mas criam cotas pra que consigam entrar na faculdade. Faz de conta que temos saúde, mas instituições particulares não param de ganhar dinheiro. Faz de conta que somos democráticos e que acreditamos num futuro melhor, mas boa parte da população mal lembra em quem votou na eleição passada. Tudo é um conjunto de mudanças que precisam ser feitas dos dois lados. O governo precisa fazer algo pra que essas situações precárias mudem, mas nós podemos protestar e cobrar. Basta não fechar os olhos diante delas, basta esquecer o faz de conta e partir para o faz de verdade, porque no faz de conta e conto de fadas ninguém paga impostos tão altos quanto pagamos.

É um prazer

Como sempre eu inventando moda. Pois é, agora é o blog. De novo... outra tentativa de expor minha opinião. Eu não sou a mestre das opiniões. Ao contrário, ultimamente ando em tanto conflito das minhas verdades. Acho que é porque por muito achei que era a dona da verdade. Mas existe uma verdade absoluta? bem, eu acredito que não. Não quero forçar ninguém a concordar nem aceitar ou muito menos mudar seu ponto de vista sobre o que eu escrever aqui. Meus conflitos e reflexões me obrigaram a expor isso pra alguém, pra que eu receba críticas mesmo e até saber no que posso mudar. Até porque o meu ponto de vista é apenas a vista de um ponto e outras vistas de outros pontos podem ser discutidas e é assim que a gente cresce. Não estou dizendo que sou uma marionete manipulada por tudo o que me falam, ou que tudo que me disserem eu vou aceitar e mudar, mas a troca é muito interessante ao meu ver e eu espero que pra vocês também.
Sintam-se a vontade para falarem o que quiserem. Isso é internet. Isso é comunicação. Isso é liberdade de expressão.
É e será um prazer. Espero que pra vocês também.