domingo, 31 de maio de 2009

Uma outra galáxia


- Tchau. Até amanhã.
- Tchau... Até amanhã?
- É... Ah, não. A gente não estuda mais junto. Tinha me esquecido.
- Hah! É, eu também esqueço às vezes...
- Como tá a faculdade?
- Normal. Tenho um trabalho pra amanhã.
- Ué? Deu pra estudar agora?
- Vida de vagabundo um dia acaba. Faculdade tem que levar a sério. Mas e o pré-vest?
- Ta indo. To estudando bastante também... Então, vou nessa.
- É, eu também.
- Até algum dia então, né
- Até.


Pois é, este diálogo foi totalmente inventado por mim, mas foi inspirado em várias conversas minhas com meus amigos este ano. O terceiro ano acaba e toda a convivência com eles termina, ou se reduz muito. A gente até esquece que na segunda não vai acordar cedo ir pra escola e vê-los novamente. Alguns na faculdade, outros no pré vestibular, muitos trabalhando. Seria muita pretensão minha conseguir postar aqui todas as minhas histórias e descrever todo o meu sentimento.

Minhas aventuras cefetianas começaram em 2006. Minha rotina era me surpreender todos os dias. Um verdadeiro universo que encontrei. Cheio. Cheio de gente, cheio de histórias, cheio de loucos. A principio você sempre acha que está no lugar errado. Seja pelas pessoas, seja pelo curso técnico, seja pelo lugar mesmo. Nunca sabia onde era tal bloco, ou tal prédio. Típica caloura. Depois passei a andar em bando. Tudo era mágico. O bosque. O bloco E. “Eu posso mesmo sair da aula se eu quiser?” “Ei onde está o boletim?” E por ai vai. Perguntas que só se respondiam com a vivência naquele semi- Éden. Lidar com a liberdade e com a responsabilidade é fator primordial no primeiro ano. Ser livre parece ser tão novo que muitos acabam se perdendo. Se perdendo das notas, das matérias, dos trabalhos.

As piadas mais engraçadas, na minha opinião, são as internas. Aquelas que só existem porque entre você e alguém existe um código, um fato que ocorreu no qual estavam juntos. E quantas vezes me pego no curso (pré-vest) soltando uma dessas? Todos me olham com caras estranhas “do que ela está falando?” Imediatamente mudo de assunto, pois lembro que ali não é o CEFET, e aqueles mal sabem do contexto daquela piada. Fora as vezes em que, diante de uma situação, penso: “Ah se o fulano estivesse aqui ele diria isso. Se o siclaninho estivesse aqui, também, diria aquilo...” Quando se convive muito tempo com alguém ou pessoas que se goste, parece que uma identidade entre elas se forma. Olhares, gestos. Pra que palavras?

Fala um pouquinho aqui. Lembra de uma história ali. A saudade é assim. Começa devagar. Nem se percebe. Quando vê, a nostalgia se alastrou. Revê-los num sábado no aniversário de um deles foi quase o mesmo que rever a família. Não precisamos dizer que nos amamos o tempo todo. Está subentendido nos abraços e até nas piadas internas. “Pega o violão, vamos cantar.” “Los hermanos?” Apesar de meses um tanto afastados, nossa amizade continua sendo como um universo mesmo. Continua a se expandir a cada dia. Novas descobertas são feitas. Mudamos juntos. E como disse no discurso da colação, hoje não é a Ingrid que vos fala, mas sim a Ingrid, a Anna, o Marcos, o Pedrinho, o Ricardo, o Leon, o Michel... Sem contar os professores. Os amigos mais velhos. As aves que planam tão lindas no céu e nos inspiram a voar tão alto quanto elas. Uns se esforçavam pra que acreditássemos na nossa glória. Outros na nossa desgraça. Todos admiráveis. Dignos de serem lembrados.

É, eu sei. Está super nostálgico esse texto. Mas a nostalgia é a maior inspiradora do meu mundo das idéias. Esses tempos ficaram pra sempre na minha memória. Tempos de alegrias, tristezas, desesperos, gargalhadas de bar e, claro, aprendizado.

sábado, 23 de maio de 2009

Exatamente humano e humanamente exato



Físicos se dizem fazer parte de uma ciência exata. Pelo menos nas provas específicas consideradas exatas a física está presente. Eles falam de superfícies sem atrito, velocidade média constante, sem resistência do ar. Um verdadeiro conto de fadas. Os químicos fazem muitos experimentos. Muitas substâncias. Muitos átomos. Até calculam quantos deles podem existir numa quantidade de certo líquido. Algum químico já viu um átomo? E matemática? F de x é igual a zero. Que F de x é esse? Tem um conteúdo chamado limite, mas os cálculos são feitos com x tendendo ao infinito.

História, Geografia. Você nunca pode afirmar nada. Tudo é relativo. Depende do referencial. Ué, agora virou física? Talvez biologia. Mas tem suas exceções. Exceção exceção espécie espécie. Melhor voltar pra matemática, que tudo é exato. Raíz de quatro não é dois. É mais ou menos dois. Putz! Que tal química? Qual a ordem de grandeza do número de mols presente na substância após passar pelo aumento de temperatura? Ordem de grandeza é igual a: deve ser bastante coisa. As questões da UERJ são interdisciplinares. QUÊ??

Ah! Vestibulana em crise. É sou mesmo. Simulados simulados. A gente fica até pensando mais na vida, no futuro e principalmente: Eu vou passar? Não assim. Porque agora tem o cursinho. Tem a forma culta de se expressar. Oh! (interjeição) senhor, que foi usado como pretexto para a igreja católica enganar seus fiés por tantos anos até que ocorresse a reforma protestante, conseguirei eu passar pelas etapas de provas que avaliarão meus conhecimentos? Livrai-me da Estácio e da Univercidade. Amém. Lei de Murphy nem pensar. É incrível que até as piadinhas mudam. Sabe o que a vaca foi fazer no espaço? Procurar o vácuo. Se a teoria de Lamarck (uso e desuso) desse certo, você não tinha mais cérebro. Vestibular. Do latim vestibularium (vesti = você não vai se divertir; bularium = estudar sexta, sábado e domingo).

Ainda há o efeito baleia branca. Nada de praia: ficar branca. Ansiedade: comer, ficar gorda.
Mas tem que ser forte. (Não como a baleia.) Afinal ele está chegando. Ele. O bicho de sete cabeças. Na verdade, 200 questões. Seu pseudônimo: Novo Enem. Não é pra entrar em crise? Outro dia na hora do intervalo vi um amigo meu cumprimentar uma outra menina:
- Fala aí, exatas!
-Tudo bem, humanas?
A gente se transforma naquilo que pretende prestar. Os de humanas são todos uns incapazes de fazer contas. Os de exatas não sabem fazer uma redação. Estereótipos, rótulos. “Vai tentar letras?(risos)”. “Vai tentar psicologia? Ih! Vai ficar maluca.” “Mais?” “Comunicação social? Ai! É muito concorrido.” Todo mundo insiste em dar um pitaco.

O negócio é tentar não pirar e fingir que sua relação candidato vaga é igual a musica/órgão (0,17). Mas até que esse ano tem sido interessante. Saber o quão você não sabe e precisa descobrir. Estudar é sempre bom. Conhecimento é indispensável. É bacana e bastante reflexivo. Fantástico. Sobre pressão, nem rola. Aliais amanhã eu tenho que assistir o Fantástico. Vai que tem notícia do vestibular?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Cálice




Aqui em casa, pelo menos umas cinco vezes por semana, minha mãe sempre faz uma faxininha. É uma poeirinha que ela tira aqui, um paninho que ela passa ali, mas é claro que existe a faxina MOR! Exatamente. Um dia especial é escolhido pra big arrumação. Isso me preocupa um pouco porque quase sempre eu sei que alguma coisa minha vai sumir. Sou a pior das bagunceiras, assumo, mas sou consciente de onde deixo as coisas. Enfim isso não vem ao caso. O fato é que quase sempre é ao som de uma musica bem alta que ela se dá. A matriarca é bem alegre. Sim ela coloca quase sempre Ivete Sangalo. Algumas horas de concentração nos estudos sempre são perdidas, tudo por causa da “poeira, poeira”.

Na quarta feira foi diferente. Estava eu no quarto adiantando alguns estudos antes do som começar e da bagunça se arrumar, quando escuto um “estava à toa na vida, o meu amor me chamou pra ver a banda passar cantando coisas de amor...” Oh! Claridade na escuridão. Longe de mim dizer que Ivete não é bacana de ouvir, mas é que sempre, fica um pouco cansativo. Não sei porque, mas aquilo me deixou mais empolgada nas leituras. Quando escuto Chico Buarque eu me sinto inteligente, culta e tenho uma louca vontade de estudar história do Brasil. Lembrei das ditaduras e da sagacidade do nosso artista com as palavras só de ouvir um “Pai! Afasta de mim esse cálice”.

É até clichê dizer que Chico Buarque é genial, mas hoje em dia tudo é clichê. Até tentar não ser clichê é clichê. Dizemos que fugimos das mesmices, mas quando nos damos conta lá estamos nós fazendo as mesmas coisas na mesma rotina de sempre. O pior não é isso, mas sim quando ver alguém fazendo algo diferente dizer: “é um maluco!” “ É um desocupado...”
As pessoas estão a cada dia mais forçadas. Nos sentimentos, nas ações. O “eu te amo” virou bom dia dito a qualquer um que passa. Nem preciso citar as novelas da Globo, nas quais no final o fulaninho malvado morre e o casal principal termina junto sorrindo tomando Molico num apartamento em frente a praia. O que mais espanta é que a maioria das pessoas já tinha lido aquilo uma semana antes nas revistas de resumo das novelas, e já viram aquele final centenas de vezes em outras novelas, mas ainda mesmo assim telespectadores se encantam e acham o desfecho totalmente imprevisível.


O que quero dizer é que por muitas vezes toda essa mesmice inibe a nossa criatividade. Sim. O medo de sermos censurados, por não sermos previsíveis. Não a censura da época do Chico, na qual se corria risco de morrer. A censura imposta pelos clichês da sociedade. A morte é da nossa vontade de mudar. Uma roupa diferente que seja bacana pra você pode causar incomodo em muitos outros, que através de olhares e risinhos vão rejeitar o que vêem. Não que se deva ligar para opiniões alheias, a vida é sua. Mas percebe quanto que o inovador ou o diferente causa reação de incomodo nas pessoas? E provavelmente o próximo passo é o preconceito, manifestados nos mínimos detalhes. A vida é feita de detalhes. Nem sequer tentar entender porque aquilo é diferente. Causou desconforto, é melhor pensar ser coisa de maluco e normal é quem continua a ser igualzinho, seguindo sempre a rotina, os padrões.

Segundo o Wikipédia:
Censura é o uso pelo estado ou grupo de poder, no sentido de controlar e impedir a liberdade de expressão. A censura criminaliza certas ações de comunicação, ou até a tentativa de exercer essa comunicação. No sentido moderno, a censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão, como certas facetas da arte. O propósito da censura está na manutenção do status quo, evitando alterações de pensamento num determinado grupo e a consequente vontade de mudança.

“Pai! Afasta de mim esse cálice”.

Não tenho uma boa conclusão pra esse assunto. Vai ser sempre uma reflexão contínua na minha cabeça. Mas uma coisa eu sei que é garantia: Alterações de pensamento vão estar sempre ocorrendo. Seja na minha cabeça, seja na cabeça de qualquer um. Nenhuma censura se sustenta. Nem as que aceitamos que existam. Nem as que nós nos impomos. Nem as que nós rejeitamos. Porque o progresso é inevitável. Nem todos os botões de flores se abrem na primavera, mas todos eles um dia abrem.

domingo, 10 de maio de 2009

Brilho eterno de uma mente COM lembranças...




Essa semana, finalmente, assisti o filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Pra quem gosta do Jim Carrey além de suas caras e bocas de “Ace Ventura”, eu recomendo. Não vou estragar o prazer de ninguém contando o final, mas colocarei a sinopse só pra ninguém ficar perdido no que eu vim falar.

Sinopse: Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento entre ambos desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa.
(tirado do site www.cinemacomrapadura.com.br)

Isso me lembrou a noticia que falava de cientistas que apagaram a memória de roedores traumatizados, ou seja, eles estão estudando formas para apagar traumas na memória primeiro de roedores e depois testar nos seres humanos, mas ainda não sabem se isso pode afetar o cérebro.

É claro, lógico e evidente que a minha imaginação que é, ironicamente falando, pouco fértil, começou a funcionar e assim imaginar um mundo em que pudéssemos apagar da memória tudo o que quiséssemos sem se importar com as questões éticas e morais -Tem coisa que a gente esquece mesmo sem experiência cientifica, como por exemplo: comprar o presente do dia das mães. Iniciei por mim mesma obviamente, fazendo uma lista de coisas que seriam interessantes esquecer: brigas, equívocos, esporros, micos, e até mesmo todas as vezes que me chamaram de cabeça dura (!) um tanto infantil, diria, mas na ignorância todos somos infantis.

Depois passei para os traumas das pessoas que perderam seus entes queridos, grandes amores que terminaram, filhos que perderam suas mães (esses talvez usariam no dia de hoje), seus pais e até mesmo as monstruosas guerras e doenças que atingiram a toda humanidade. Traumas. O que pra alguns pode não parecer nada, pra outros são verdadeiras torturas psicológicas de acordo com suas verdades e quem sabe apagá-las da memória seria uma boa solução?

O filme ia e vinha na minha mente o tempo todo. É assim que vejo quando alguma coisa foi legal de verdade pra mim: quando gosto de relembrar. Todos os momentos felizes que Joel passa com Clementine vão se apagando. Tudo para esquecer um relacionamento que não deu certo. Ta ai. Todos os momentos felizes apagados em função de algo ruim que aconteceu. Vale a pena? Será que vale esquecer todos os bons momentos com alguém só pra esquecer os ruins? E o que determina ruim? O que determina sofrimento? Qual a função da dor? Sabe, se eu esquecesse todas as vezes que me criticaram, que me chamaram de cabeça dura, dos esporros que tomei, dos meus traumas em geral, talvez eu nunca amadureceria talvez eu nunca refletiria no que é necessário pra que eu me torne uma pessoa melhor e talvez eu novamente cometesse os mesmos erros, tomasse os mesmos esporros, e criasse os mesmos problemas. Não paramos de pensar em momento algum. As idéias se renovam sem ao menos percebermos e quando nos damos conta entendemos que foi bom passar por certas dores. O progresso é inevitável. Esquecer os traumas seria também esquecer o aprendizado e a oportunidade de crescer moralmente.

Mas é claro que nem todo mundo pensa assim e provavelmente haveriam desmemoriados sempre. Não obrigo a ninguém a pensar desse jeito. Cada um tem a sua dor e cada um sabe da necessidade, ou não, de passar por ela. Acredito que esquecer tudo de ruim que já nos aconteceu não é tão válido quanto pensar no porque aquilo foi ruim pra nós. A dor é como a febre que nos alerta que algo em nós está errado e que precisamos mudar. Tomar a vacina. Criar anticorpos. Talvez a felicidade não seja a ausência de traumas ou problemas, mas sim a habilidade de lidar com eles. A dor pode existir, mas o sofrimento depende de cada um. Pra mim não é fácil ter um pensamento otimista de imediato quando passo por uma situação ruim. Sou imediatista. Mas é começando a refletir e filosofar na teoria que a gente tenta colocar na prática.

Espero não ter ofendido, nem desrespeitado o trauma e o psique de ninguém. Não é preciso concordar. Só trocar.
“ A mente que se abre a uma nova idéia jamais retorna ao seu tamanho original.” (Albert Einstein)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ordens da empresa





“ Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer...” Foi ao som de Rita Lee que acordei hoje. Era meu celular tocando as seis e quarenta da manhã me avisando que dezoito primaveras se completavam pra mim. Na verdade só seriam dezoito mesmo as dez e vinte, mas um certo indivíduo (muito querido por sinal, apesar de tudo) queria que eu tivesse o privilégio de acordar àquela hora da manha no dia do meu aniversário. É lógico que eu desliguei o celular e voltei a dormir. Dormir? Tentar dormir. Porque o cachorro que me adora também queria que eu acordasse cedo, então lá fui eu fazer a vontade daquele que recentemente me fez dois furos no rosto com os dentes. Obrigada, Nebacetin.
Obs: Nebacetin é o nome da pomada que me livrou de cicatrizes, não o nome do cachorro.

Tomei minha aguinha de berinjela (uma das invenções mirabolantes da mamãe), fiz uns exercícios e mais algumas coisas que eu não lembro - já são dezoito anos, minha memória tem direito de falhar. Estava feliz e me preparava para ter um dia legal ao lado dos meus amigos que até me fizeram um bolo. Então “nada vai me estressar hoje”. Ai! Mas que pensamento ingênuo. Para chegar mais rápido ao colégio eu resolvi pegar o trem. Essa palavra te causa um certo pânico? Trem. E agora? Sentiu um arrepio? Pois digo que nem depois de três anos, todos os dias, assiduamente nesse transporte eu deixo de ter uma surpresa. Seja dos colegas de vagão. Dos funcionários educados. Ou o ambiente arejado. Não me acostumo.


Ainda assim estava feliz por estar na estação: “oba, vou pegar o trem e chegar mais rápido...”. Tenho uma mania, recente diria, de tirar fotos de coisas e ambientes meio “nada a ver” ou que ache que precisam ser guardados na memória. Mesmo que seja de um lugar horrível. Mas quando olhar a foto vou lembrar do momento. Puro saudosismo, sei, mas gosto. Então tirei foto das pessoas na fila. Voltando a situação, ao chegar na estação me deparo com uma fila enorme, maior ainda na gratuidade, a qual eu tenho direito com o cartãozinho. A menina da frente, que também tem direito a gratuidade foi barrada: a mulher, transbordando educação, tomou o cartão dela, não lhe deu uma passagem e disse que não podia fazer nada se ela não tinha dinheiro para ir para escola. Então chegou a minha vez. Sem nem olhar para o meu cartão, a moça disse: “seu cartão venceu a validade”
- como, se você nem olhou?
- Venceu. Você vai ter que fazer outro. Ordens da empresa.
- De novo? Eu refiz o meu no final do ano passado? Você não vai me dar uma passagem?
- Não. Ordens da empresa.
E o que é que eu tenho a ver com as ordens da empresa?? Eu trabalho na empresa? Eu só queria ir para escola. “OK” pensei, não ia deixar isso me abalar. Pago a passagem e fica tudo certo. Puxei uma nota de cinqüenta reais. A única que eu tinha, pra pagar uma dívida de trinta e cinco.
- Olha, não tenho troco não.
- E ai?
- Vê aqui do lado. Se ele não tiver a gente não pode dar a passagem.
- Já sei. Ordens da empresa. Ok, você não tem culpa.
E lá fui, encarar outra fila. Só queria chegar mais rápido. Só.
Segundo caixa:
- Não tenho troco.
- E ai?
- Por ordens da empresa eu não posso dar uma passagem pra cinqüenta reais.
E eu me perguntei: Será que se ele fizer isso a empresa vai explodir a cabine dele?
- Poxa vida!! Vocês não aceitam meu cartão, não aceitam que eu pague. E ai? Eu vou ficar sem ir pra escola por causa de vocês??
- Olha eu vou quebrar o seu galho. Mas eu não podia fazer isso por ordens...
-AH! Muito obrigada moço. Desculpa fazer você quebrar as ordens da empresa, mas eu só queria ir pra escola.


Dei uma corridinha. Pra pegar o próximo trem? Não. Fiquei com medo da cabine explodir.


Mais dez minutos de espera até que o trem chegasse. Então avistei na plataforma a menina que estava na minha frente e foi vítima do excesso de educação da funcionária. Ela estava chorando e eu que gosto de dar uma de justiceira fui lá falar com ela. “Você não pode se sentir assim não. Eles são ridículos mesmo, já é a segunda vez que tomam meu cartão...”
Antes que eu continuasse ela interrompeu dizendo que não estava chorando por causa daquilo. E a minha cara? Mas ela foi legal, continuou o assunto e vejam que coincidência: todas as suas histórias de trem eram super parecidas com as minhas e provavelmente de muitas outras pessoas, ou melhor, muitos outros estudantes. E ainda dizem que estudante é tudo vagabundo. Nunca vi vagabundo passar por isso tudo pra estudar. Olha que a gente ainda corre o risco de tomar umas chicotadas por Madureira. Estilo “ A lista de Schindler” mesmo. Apesar de que se jogassem água na gente, quem sabe não ficava mais fresquinho? Até porque tem que estar num dia de sorte pra pegar um trem com ar, né, Santa cruz?


Enfim, fiz uma nova amizade. Depois disso o dia foi ótimo. Ao lado dos amigos, falando besteiras, comendo besteiras, comemorando meu aniversário num estilo assim, bem estudante mesmo.

sábado, 2 de maio de 2009

Desabafo

Incrível como a cada dia me surpreendo com as coisas da vida. Acontecimentos no meu mundinho como acontecimentos mostrados em jornais internacionais me deixam muito reflexiva. Eu não tenho o poder das palavras. São como um córrego na minha cabeça. Passam correndo e quando vejo já me perdi na idéia. “ O que eu ia dizer mesmo?” frase típica e corriqueira pra mim, mas isso não me impede de ter uma opinião. Um tanto confusa por muitas vezes, mas não no caso que aqui vou retratar. Peço desculpas primeiramente. Desculpas por não redigir um texto tão mirabolante com uma visão crítica, política e analítica da coisa. É apenas a minha opinião. Simples, como as minhas palavras, mas que tem um valor pra mim e que eu preciso colocar pra fora.
Bem, comecemos pelos fatos. Pra quem está atento aos jornais já devem saber da explosão que aconteceu próximo ao colégio CEFET que fica em frente à estação do metrô Maria da Graça. Houveram quinze feridos e cinco em estado grave. Dentre esses cinco, uma amiga minha de longa data está incluída. Eles foram levados a hospitais públicos, que por incrível que pareça, são bem equipados para casos de queimaduras. Digo por incrível que pareça com certa tristeza. Pra onde vai o dinheiro dos impostos que pagamos? Não deveria a saúde ser uma prioridade? Os noticiários tem mostrado algo tão precário nesses hospitais, que é difícil ficar tranqüilo quando se sabe que alguém que você gosta muito está num lugar desses.
No feriado da sexta feira, fomos eu e minha mãe fazer uma visita. Nossas famílias também são muito amigas, nossa preocupação era tão frenética quanto a deles. Enfim veio o absurdo. Absurdo sim. Uma falta de respeito eu diria. Minha amiga estava no quarto sem supervisão alguma. Um doente de camisola chegou até ela e disse meia dúzia de incoerências, devia estar sob o efeito de remédios, mas isso não o impediu de roubar a comida que estava no colo dela. A menina chamou por alguém por várias horas e ninguém veio socorrê-la. Sua mãe descobriu ainda que ao seu lado, no mesmo quarto, estavam dois bandidos algemados.
Felizmente até o fim do dia, eles, os pais, conseguiram transferi-la para um hospital particular bem equipado e com segurança também. Isso deixou, não só a eles mas a nós aqui de casa também, um alívio indescritível. Agora ela está bem. Entretanto eu ainda fiquei pensando em toda essa situação. E as pessoas que não podem ir para uma instituição particular? Será que estas tem o direito de não ficar a mercê de um louco que rouba a comida dos pacientes e de enfermeiras que não dão a mínima? Uma vez li no jornal que um político desses qualquer passou a se preocupar com as calçadas quebradas depois que sua mulher quebrou o salto andando por uma delas. Será necessário que a família dos responsáveis pela saúde passem por uma situação parecida com a de minha amiga para começarem a se preocupar e fazer algo para mudar a situação dos hospitais e da saúde pública?
As vezes acho que vivemos em um mundo de faz de conta. Faz de conta que temos educação, mas criam cotas pra que consigam entrar na faculdade. Faz de conta que temos saúde, mas instituições particulares não param de ganhar dinheiro. Faz de conta que somos democráticos e que acreditamos num futuro melhor, mas boa parte da população mal lembra em quem votou na eleição passada. Tudo é um conjunto de mudanças que precisam ser feitas dos dois lados. O governo precisa fazer algo pra que essas situações precárias mudem, mas nós podemos protestar e cobrar. Basta não fechar os olhos diante delas, basta esquecer o faz de conta e partir para o faz de verdade, porque no faz de conta e conto de fadas ninguém paga impostos tão altos quanto pagamos.

É um prazer

Como sempre eu inventando moda. Pois é, agora é o blog. De novo... outra tentativa de expor minha opinião. Eu não sou a mestre das opiniões. Ao contrário, ultimamente ando em tanto conflito das minhas verdades. Acho que é porque por muito achei que era a dona da verdade. Mas existe uma verdade absoluta? bem, eu acredito que não. Não quero forçar ninguém a concordar nem aceitar ou muito menos mudar seu ponto de vista sobre o que eu escrever aqui. Meus conflitos e reflexões me obrigaram a expor isso pra alguém, pra que eu receba críticas mesmo e até saber no que posso mudar. Até porque o meu ponto de vista é apenas a vista de um ponto e outras vistas de outros pontos podem ser discutidas e é assim que a gente cresce. Não estou dizendo que sou uma marionete manipulada por tudo o que me falam, ou que tudo que me disserem eu vou aceitar e mudar, mas a troca é muito interessante ao meu ver e eu espero que pra vocês também.
Sintam-se a vontade para falarem o que quiserem. Isso é internet. Isso é comunicação. Isso é liberdade de expressão.
É e será um prazer. Espero que pra vocês também.